As armas explosivas mataram 22.600 civis ao longo de 2025, menos 21% do que o recorde de 28.600 mortes registado no ano anterior, embora esta aparente melhoria esconda um agravamento generalizado da violência contra as populações civis. De acordo com o relatório anual do Explosive Weapons Monitor, a descida explica-se sobretudo pelos cessar-fogo em Gaza e no Líbano — onde, ainda assim, os civis continuam a ser vítimas dos bombardeamentos —, ao passo que, no resto do mundo, o quadro se deteriora: mais países afectados, mais tipos de armamento em uso e mais serviços essenciais destruídos. No total, o recurso a armas explosivas provocou sofrimento entre civis em pelo menos 65 países e territórios durante o ano.
Os dados compilados revelam uma concentração preocupante da responsabilidade. Cerca de 56% de todas as mortes contabilizadas a nível mundial são atribuídas às forças armadas israelitas, enquanto 85% dos incidentes que causaram danos a civis — mais de 17.300, contra 3.090 imputados a actores não-estatais — são da responsabilidade de forças armadas estatais. Registaram-se ainda 2.541 ataques contra a ajuda humanitária, um aumento de 52% face a 2024, e os ataques a escolas cresceram 64%, atingindo os 1.416 casos. «Serviços vitais estão a ser aniquilados por bombardeamentos e fogo de artilharia sistemáticos», sublinha Anne Héry, directora de advocacia da Handicap International. «A utilização de armas explosivas em zonas povoadas desmantela metodicamente o acesso dos civis aos serviços básicos indispensáveis à sua sobrevivência: escolas, hospitais, comboios de ajuda, canalizações de água e mercados alimentares são destruídos a ritmos crescentes, em mais lugares e por mais actores em 2025. Ficámos particularmente chocados ao constatar que cada vez mais países e territórios — 65 — estão abrangidos por esta prática.»
A dimensão estatal desta violência ganha contornos ainda mais expressivos quando se analisa o comportamento dos Estados signatários da Declaração Política de 2022 sobre armas explosivas. Em cinco contextos distintos, as forças armadas estatais foram responsáveis por mais de mil incidentes cada, entre os quais o Território Palestiniano, Myanmar, a Ucrânia e a Rússia. O número de Estados subscritores daquela declaração envolvidos em danos a civis subiu de cinco para oito em 2025 — Camboja, Quénia, Marrocos, Nigéria, República da Coreia, Somália, Turquia e Estados Unidos —, ao mesmo tempo que o número de países vítimas do uso de armas explosivas por parte desses signatários saltou de cinco, em 2024, para treze em 2025, sinal de que, nestes casos, os compromissos políticos assumidos não se traduzem numa alteração efectiva das práticas militares.
A par destes números, o relatório evidencia uma transformação acentuada nos métodos de combate, com as armas aéreas — cada vez mais os drones — a representarem 67% de todos os incidentes com danos civis. A tendência é particularmente visível no recurso a drones em ataques contra escolas, que aumentou 358% só na Ucrânia, e nos bombardeamentos com drones sobre campos de deslocados no Território Palestiniano, que quintuplicaram, passando de 64 incidentes em 2024 para 303 em 2025. O documento identifica também três padrões recorrentes que têm erodido activamente as protecções consagradas no direito internacional humanitário: alegações de que os hospitais estão a ser utilizados por actores armados, a hostilidade dirigida a instituições humanitárias como a ONU e a OMS, e discursos desumanizantes contra grupos étnicos ou nacionais. Os investigadores responsáveis pelo estudo alertam que estas narrativas nocivas surgem, na maioria dos casos, não por fabricação, mas através da interpretação selectiva e da politização de ataques reais — o que as torna ainda mais difíceis de contrariar.


