O Teatro Artemysia é uma associação cultural instalada no Luxemburgo desde 2019, fundada pela directora artística italiana Rafaela D’Angelo após uma trajectória que passou por Itália, Cuba e Polónia, e que foi decisivamente marcada pelo contacto com o Odin Theatre, na Dinamarca. O nome não é inocente: evoca Artemisia Gentileschi, pintora do século XVII e uma das primeiras mulheres admitidas na Academia de Desenho em Itália, mas também a planta que dá origem ao absinto — o licor que, segundo a lenda, proporcionava visões. É precisamente essa metáfora que define a missão da associação: abrir perspectivas, revelar outras realidades, provocar um olhar diferente sobre o mundo.
Num país onde o multiculturalismo é parte integrante da identidade nacional, o Artemysia afirma-se como um ponto de confluência entre línguas, culturas e gerações. Nos seus ateliês cruzam-se profissionais internacionais, migrantes recém-chegados, residentes de longa data, jovens estudantes e diferentes gerações. Nas apresentações de fim de ano emergem o finlandês, o japonês, o chinês e muitas outras línguas que se misturam com o inglês e o francês. A visão artística que orienta este trabalho coloca o corpo no centro da criação: o actor não é apenas alguém que declama texto, mas um ser que se move, que ocupa o espaço, que estabelece uma relação física com o outro.
Para além da criação cénica, a associação tem desenvolvido projectos de forte dimensão social, incluindo oficinas de teatro no estabelecimento prisional do Luxemburgo. O mais recente foi o Ouni Grenzen — «sem fronteiras», em luxemburguês —, dirigido a migrantes, viajantes e pessoas em situação de vulnerabilidade que chegam ao Luxemburgo muitas vezes no início de um processo de instalação. O projecto, realizado em parceria com o Museu Europeu de Schengen, a associação Aldica e a ONG Nord-Sud, e com o apoio do Ministério da Cultura, culminou a 26 de abril com uma visita guiada e teatralizada a Schengen — um lugar onde confluem três fronteiras e onde a história europeia convida naturalmente à reflexão sobre os limites físicos, identitários e culturais que nos separam, ou que podemos decidir ultrapassar.
Sobre a comunidade lusófona, Rafaela D’Angelo reconhece um potencial ainda por explorar. A associação tem recebido numerosos estudantes de língua portuguesa e a directora artística manifesta interesse genuíno em desenvolver um espectáculo multilíngue com o português como língua principal, eventualmente inspirado na poesia ou em adaptações da literatura lusófona. Para quem nunca pisou um ateliê de criação cénica, a mensagem é directa: «Atreva-se.» O teatro, defende, não é uma actividade reservada a profissionais ou iniciados — é uma experiência de encontro com o outro, de descoberta pessoal, de conexão com a vida.


