De acordo com informações publicadas pelo BCE (Banco Central Europeu), Piero Cipollone, membro da Direcção Executiva do BCE, abordou hoje, em Washington DC, a importância da tecnologia na evolução do sistema financeiro, durante o 24º Simpósio Anual sobre a construção do sistema financeiro do século XXI, organizado pela Harvard Law School e pelo Programa de Sistemas Financeiros Internacionais.
Cipollone enfatizou que a inovação financeira deve facilitar que o capital encontre o uso mais produtivo e que o risco encontre o seu proprietário mais adequado, sempre ao menor custo possível. Ao longo da sua apresentação, ele destacou a necessidade de considerar os efeitos distributivos da inovação, questionando se os benefícios são transferidos para os mutuários e poupadores ou se se perdem ao longo do caminho.
Desde o final do século XIX, o sector financeiro tem-se expandido enormemente e a tecnologia tornou os mercados mais eficientes. Contudo, o custo de intermediação financeira nos Estados Unidos mantém-se próximo de 2% dos activos intermediados, um padrão que também se observa em países europeus como Alemanha, França e Reino Unido.
A interrogação central levantada por Cipollone reside na possibilidade de a tokenização romper com este padrão histórico e permitir ganhos reais de eficiência económica. Ele argumenta que, com a tokenização, temos uma tecnologia verdadeiramente diferente das anteriores, embora a concretização dos seus benefícios dependa de condições específicas, incluindo o papel que os bancos centrais podem desempenhar nesta transformação.
O membro da Direcção Executiva abordou como a tokenização e a tecnologia de contabilidade distribuída (DLT) podem ser transformadoras. A tokenização, ao representar activos na forma de tokens digitais, pode consolidar todo o ciclo de vida de uma transacção – desde a emissão até a liquidação – numa única plataforma digital disponível 24 horas por dia. Isto apresenta uma oportunidade para automatizar processos, como o pagamento de cupons, através de contratos inteligentes, simplificando o acesso ao financiamento e reduzindo custos.
Cipollone também analisou a necessidade de um paradigma que integre o sistema financeiro. Ele apontou que diversas componentes do sistema financeiro devem adoptar simultaneamente as novas tecnologias e referiu que as inovações financeiras, ao longo do tempo, têm melhorado a eficiência sem alterar a arquitectura fundamental do sistema.
“Assim como a electricidade exigiu uma reestruturação abrangente da produção para aumentar a produtividade, a tokenização tem o potencial de reconfigurar as finanças”, sublinhou. Ele exemplificou a interdependência dos componentes do mercado de títulos, onde a liquidez, o mercado secundário e os derivados precisam de coexistir para que sejam eficientes.
À medida que se avança, a questão não é apenas se o sistema adoptará a nova tecnologia, mas também como será configurado. Cipollone ressaltou que as escolhas estruturais realizadas nesta fase inicial determinarão a configuração do sistema e se os benefícios da tokenização serão amplamente distribuídos.
Neste contexto, o papel do banco central é crucial. Cipollone falou sobre a necessidade de que os bancos centrais incentivem a adopção da tokenização, especialmente ao providenciarem dinheiro centralizado e liquidez garantida por colaterais. A introdução de dinheiro digital do banco central é essencial para fornecer um activo de liquidação livre de riscos no mercado tokenizado.
“O Eurosystem está a trabalhar em projectos que testam a viabilidade da liquidação de transacções baseadas em DLT e prevê o lançamento de um activo de liquidação em euros”, concluiu Cipollone. Mediante estas inovações, o BCE está a estabelecer as bases para um ecossistema financeiro tokenizado que possa criar um mercado mais integrado e competitivo, garantindo que os benefícios cheguem a todos os envolvidos.
Em conclusão, a tokenização e a DLT apresentam uma nova era na inovação financeira, com potencial para trazer benefícios únicos em eficiência. Contudo, o ritmo de adopção e a estrutura de mercado resultante serão determinantes para o seu sucesso.
Os próximos passos para assegurar que a arquitectura financeira tokenizada ajude a criar um ecossistema integrado e competitivo estão agora nas mãos das decisões políticas a serem tomadas.


