A melhoria da segurança alimentar e o regresso das refeições escolares estão a transformar a vida de milhares de habitantes na região de Gabu, no leste da Guiné-Bissau. Hortas comunitárias, criação de galinhas, formação em costura e sistemas de irrigação alimentados por energia solar fazem parte de um projecto que já beneficia cerca de 3.000 pessoas em seis aldeias. Segundo a publicação AllAfrica, a iniciativa «One SDG Tabanca Initiative at a Time», desenvolvida pelo Programa Alimentar Mundial (PAM), em colaboração com as autoridades regionais e a cooperativa de mulheres agricultoras CAMUCA, procura combater a fome através da produção local de alimentos, da educação e da criação de oportunidades económicas. A aldeia de Cumpanghor tornou-se o centro deste projecto piloto, iniciado em 2024 com algumas máquinas de costura e posteriormente alargado à horticultura, avicultura e instalação de infra-estruturas de abastecimento de água.
Os resultados já são visíveis. Mais de 100 agricultoras da CAMUCA participam na produção de tomate, quiabo e outros vegetais, beneficiando de uma bomba solar e de um reservatório elevado que permitem melhorar a irrigação. A produção de ovos e hortícolas também contribuiu para recuperar as refeições escolares, suspensas durante mais de um ano por falta de financiamento. Na Escola Primária de Cumpanghor, os alunos voltaram a receber pratos enriquecidos com produtos locais. Entre eles está Djenabu, de 16 anos, que frequenta o sexto ano e participa igualmente nas aulas de costura organizadas no centro comunitário recuperado. A jovem sonha tornar-se costureira e professora, procurando incentivar outras raparigas a prosseguirem os estudos. O PAM fornece actualmente refeições a mais de 152.000 crianças em 700 escolas da Guiné-Bissau, sendo Cumpanghor uma das duas escolas abrangidas directamente por esta iniciativa nas seis comunidades participantes.
A intervenção responde a uma situação alimentar preocupante. A região de Gabu apresenta algumas das taxas mais elevadas de fome e desnutrição do país, enquanto, a nível nacional, quase uma em cada três crianças com menos de cinco anos sofre de desnutrição crónica e aproximadamente sete em cada dez pessoas não conseguem suportar os custos de uma alimentação saudável. Uma avaliação realizada nas seis comunidades identificou dificuldades alimentares e níveis elevados de anemia, confirmando a necessidade de medidas integradas. Jacqueline Flentge, directora do PAM na Guiné-Bissau, defende que a segurança alimentar depende também da educação, do emprego e da capacidade das populações para produzirem os seus próprios alimentos. O chefe da aldeia de Cumpanghor, Suleimane Gan, destaca a criação da horta, a formação profissional dos jovens e o regresso das refeições escolares como algumas das principais conquistas. Para Mariama Baldé, agricultora e mãe de quatro crianças, a possibilidade de produzir mais alimentos e contar com refeições na escola representa um alívio nas despesas familiares.
O projecto está igualmente a atrair novos parceiros e poderá servir de modelo para outras comunidades da Guiné-Bissau. O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) disponibilizou equipamento adicional de costura, enquanto a UNESCO prevê desenvolver actividades de formação profissional. As refeições escolares contam com o apoio do Japão, da República da Coreia, do sector privado japonês e do programa PACVEAR II, liderado pelo Governo guineense com financiamento do Banco Africano de Desenvolvimento e do Programa Global de Agricultura e Segurança Alimentar. A iniciativa acompanha ainda o compromisso nacional de alcançar a cobertura universal das refeições escolares até 2027. Para Adama Candé, presidente da CAMUCA, a experiência demonstra que investimentos articulados na agricultura, educação e formação profissional podem criar rendimentos e melhorar as condições de vida. Cumpanghor já recebe visitantes de outras localidades interessados em reproduzir o modelo, numa altura em que a escassez de financiamento humanitário torna cada vez mais necessária a colaboração entre comunidades e organizações internacionais.



