A pintura chinesa feita directamente com os dedos ganhou novos públicos no Luxemburgo durante as celebrações do Festival do Meio do Outono, numa iniciativa que trocou os pincéis tradicionais pelo contacto directo das mãos com a tinta. A experiência, realizada no Centro Cultural da China no Luxemburgo, integrou uma promoção cultural mais ampla de Chengdu, com exposições abertas ao público, demonstrações de artesanato, experiências gastronómicas e outras actividades.
Numa entrevista exclusiva ao Lëtzebuerg Hoje após a exposição itinerante, Lin Xu revelou que a reacção das crianças foi uma das maiores surpresas da sua passagem pelo Grão-Ducado. Os mais novos queriam tocar na tinta, experimentar diferentes movimentos e perceber que imagens conseguiam produzir usando apenas os dedos. Para o artista, o entusiasmo mostrou algo simples: a vontade de criar atravessa fronteiras. Crianças de diferentes países revelam a mesma curiosidade quando têm a possibilidade de trabalhar directamente com as mãos.
Foi precisamente essa experiência que esteve no centro da actividade. Os participantes acompanharam os movimentos de Lin Xu e puderam testar como a pressão, os gestos e a deslocação das mãos alteravam o resultado no papel. Um toque mais ou menos carregado produz efeitos distintos. Um único dedo permite traçar linhas, enquanto vários dedos podem desenhar formas ou espalhar manchas de tinta. O público luxemburguês teve assim contacto com uma expressão da arte chinesa ainda pouco conhecida na região.

O interesse depressa ultrapassou o universo infantil. Lin Xu contou que, durante uma recepção do Dia Nacional organizada pela Embaixada da China no Luxemburgo, um arquitecto experimentou a técnica e demonstrou grande interesse. O director do Museu de Vianden também teve oportunidade de pintar desta forma. Ao longo da estadia, o artista trocou ideias com outros profissionais das artes e conheceu ainda um jovem com formação em história da arte que pretendia adquirir uma obra do mestre para oferecer ao filho.
Esses encontros assumiram, para Lin Xu, uma importância que vai além das próprias demonstrações. O contacto com pessoas de diferentes meios permitiu-lhe perceber a receptividade desta técnica no Luxemburgo e identificar possibilidades para futuras colaborações. A ambição passa por transformar esta visita num primeiro passo para uma presença mais regular da pintura com os dedos no país, abrindo simultaneamente novas oportunidades de intercâmbio com artistas e instituições culturais locais.

Chengdu, na província chinesa de Sichuan, ocupa um lugar importante na divulgação desta tradição. A chamada «Pintura com os Dedos do Monte Emei» encontra-se inscrita na Lista do Património Cultural Imaterial da Província de Sichuan. Lin Xu dedica-se à preservação desta expressão artística e à sua apresentação a novos públicos, procurando que os participantes não se limitem a conhecer a técnica, mas sintam também o prazer de criar.
A passagem pelo Luxemburgo abriu igualmente espaço para falar das origens da expressão visual. Lin Xu evocou as marcas de mãos deixadas em superfícies por comunidades antigas e a arte rupestre utilizada como registo da vida humana, dos costumes e das actividades quotidianas. Ao longo do tempo, explicou, algumas representações visuais foram sendo simplificadas e tornaram-se mais abstractas, até evoluírem para símbolos capazes de conservar e transmitir informação.
Também a tinta preta tradicional da pintura chinesa entrou na conversa. Segundo Lin Xu, era historicamente produzida a partir da fuligem resultante da queima de madeira. Essa fuligem era recolhida em recipientes e posteriormente trabalhada até se transformar em tinta. A explicação ajudou a mostrar outra dimensão desta arte: por detrás da agilidade dos dedos existe um conhecimento profundo dos materiais e de técnicas aperfeiçoadas ao longo de séculos.
A exposição itinerante integrou uma série de actividades culturais do Festival do Meio do Outono, co-organizadas pelo Centro Cultural da China no Luxemburgo e pela Associação Popular de Chengdu para a Amizade com Países Estrangeiros. De acordo com os materiais do evento, a Embaixada da República Popular da China no Luxemburgo assumiu a orientação da iniciativa, enquanto a Sichuan Shangbang Gediao Cultural Development Co., Ltd. participou como co-organizadora.

O projecto pretende dar a conhecer ao público no Luxemburgo a diversidade do património cultural de Chengdu e mostrar uma cidade cuja identidade vai muito além da imagem internacionalmente associada aos pandas. Artes tradicionais, gastronomia e diferentes formas de criação fizeram parte dessa apresentação, procurando aproximar os visitantes de uma herança cultural com várias camadas.
Para Lin Xu, a resposta encontrada no Luxemburgo deixa espaço para novos projectos. O entusiasmo das crianças, a curiosidade dos profissionais e os contactos estabelecidos durante a visita mostraram-lhe possibilidades de desenvolver outros modelos de colaboração. O artista espera regressar com a pintura feita com os dedos e aprofundar, através desta tradição, o intercâmbio entre artistas, instituições culturais e públicos do Luxemburgo e da China.



