África está a afirmar-se como um novo palco estratégico na rivalidade entre Estados Unidos e China pela liderança em inteligência artificial (IA), num momento em que o continente combina crescimento demográfico acelerado, expansão digital e um mercado ainda em formação.
De acordo com o South China Morning Post, o continente é visto como uma das principais fronteiras tecnológicas do futuro, com decisões atuais sobre infraestruturas e plataformas a poderem moldar a adoção da IA nas próximas décadas. Apesar de uma taxa de utilização ainda inferior à do Norte Global, o interesse cresce rapidamente, sobretudo entre os mais jovens, impulsionado por ferramentas como o ChatGPT.
A China parte com vantagem estrutural, sustentada por anos de investimento em infraestruturas digitais no âmbito da Iniciativa Faixa e Rota. Modelos como o DeepSeek têm ganho terreno, beneficiando de acesso gratuito e menor dependência de sistemas ocidentais, o que tem acelerado a adoção em vários países africanos.
Os Estados Unidos, por sua vez, intensificaram a sua presença através de empresas como Microsoft, Google e OpenAI, com foco em áreas como a saúde e a educação. Parcerias recentes, incluindo iniciativas da Gates Foundation e da Anthropic, mostram uma aposta crescente na aplicação prática da IA para responder a carências estruturais.
Ao mesmo tempo, Washington tem reforçado a chamada diplomacia tecnológica, procurando contrariar a influência chinesa não apenas através do setor privado, mas também com programas governamentais dedicados à exportação de tecnologia.
A diversidade linguística africana é outro desafio central. Muitas línguas continuam sub-representadas nos sistemas de IA, embora empresas como a Meta e a Google estejam a investir na sua inclusão, tentando alargar o acesso a milhões de utilizadores.
Apesar das oportunidades, subsistem riscos. África possui cerca de 30% das reservas mundiais de minerais críticos, mas retém apenas uma fração das receitas geradas. Além disso, o impacto da IA no emprego levanta preocupações num continente onde milhões de jovens entram todos os anos no mercado de trabalho.
Segundo a mesma fonte, o verdadeiro desafio para África não será escolher entre Estados Unidos e China, mas garantir que esta nova vaga tecnológica contribui para o desenvolvimento sustentável e para a autonomia do continente num cenário global cada vez mais competitivo.


