A preparação para sobreviver durante 72 horas sem assistência externa tornou-se uma prioridade de segurança na Europa. Água, alimentos, medicamentos, dinheiro e equipamentos básicos fazem agora parte das recomendações dirigidas às famílias. A medida não é nova, mas a importância que está a ganhar revela uma mudança significativa na avaliação dos riscos. No Luxemburgo, o Governo lançou em Outubro de 2026 uma campanha nacional de preparação para emergências, com a distribuição de um guia a cerca de 300 mil famílias, incluindo uma versão em português.
A recomendação das 72 horas existe há décadas nos Estados Unidos, Canadá e Japão, países habituados a preparar as populações para catástrofes naturais. Na Suécia e na Finlândia, a defesa civil também faz parte das políticas nacionais há muitos anos. A novidade está na atenção que estas medidas começaram a receber na Europa Ocidental. A pandemia de COVID-19 expôs fragilidades nas cadeias de abastecimento, enquanto a invasão russa da Ucrânia, em Fevereiro de 2022, obrigou os governos europeus a reconsiderarem ameaças militares, energéticas e informáticas anteriormente consideradas menos prováveis.
Os riscos tornaram-se mais complexos. Um ciberataque contra uma infra-estrutura crítica poderá afectar simultaneamente vários serviços essenciais. Uma interrupção prolongada da electricidade, por exemplo, pode comprometer telecomunicações, pagamentos electrónicos, bombas de combustível, abastecimento de água e conservação de medicamentos. Em Outubro de 2024, o antigo Presidente finlandês Sauli Niinistö apresentou à Comissão Europeia um relatório defendendo uma preparação civil e militar mais integrada. Em Março de 2025, a Comissão Europeia apresentou a Estratégia da União para a Preparação, que recomenda às famílias reservas suficientes para garantir pelo menos 72 horas de autonomia.
No Luxemburgo, esta orientação traduziu-se numa campanha apresentada pelo Governo no dia 9 de Outubro de 2026, com distribuição dos guias prevista a partir de 14 de Outubro. O documento explica como organizar reservas domésticas e reagir perante interrupções de serviços essenciais. A iniciativa foi preparada ao longo dos meses anteriores, incluindo um inquérito sobre a percepção dos riscos pela população. Esta cronologia é particularmente relevante: os elementos públicos conhecidos apontam para uma campanha de prevenção planeada, e não para uma resposta a informações sobre uma guerra iminente ou uma catástrofe prevista para as próximas semanas.
A crescente mobilização dos governos europeus levanta, contudo, dúvidas sobre a verdadeira dimensão das ameaças identificadas. Os documentos oficiais mencionam a guerra na Ucrânia, as ameaças híbridas, os ciberataques, a sabotagem de infra-estruturas e os fenómenos meteorológicos extremos. Não existem, porém, provas públicas de que a distribuição dos kits esteja relacionada com informações sobre um conflito iminente. Também não é possível determinar se avaliações de segurança classificadas contribuíram para acelerar algumas decisões nacionais. A simultaneidade de campanhas em vários países reflecte, pelo menos em parte, a aproximação das políticas europeias de prevenção.
A recomendação de três dias de autonomia também levanta questões sociais. Nem todas as famílias dispõem de recursos financeiros ou espaço para armazenar alimentos, água e equipamentos de emergência. Num país com um custo de vida elevado como o Luxemburgo, esta preparação poderá representar despesas adicionais para os agregados mais vulneráveis. E as 72 horas não garantem que uma crise termine ao fim de três dias. A preparação individual pretende permitir que os serviços de emergência concentrem os seus recursos nas situações mais urgentes, mas não substitui a responsabilidade do Estado de assegurar o funcionamento das infra-estruturas críticas e a assistência às populações.
O significado desta mudança ultrapassa a simples recomendação de guardar água e alimentos em casa. Os governos europeus reconhecem agora que sociedades altamente desenvolvidas e dependentes da tecnologia podem enfrentar interrupções graves e simultâneas dos serviços essenciais. A preparação civil passou a ocupar um lugar central nas estratégias de segurança, num continente confrontado com novas ameaças e maior instabilidade geopolítica. Os kits de 72 horas não constituem uma prova de guerra iminente, mas demonstram que a Europa está a preparar-se para cenários que, durante décadas, muitos governos consideraram pouco prováveis.



