Micas Carvalho lança guia do Luxemburgo
A ideia de que «no Luxemburgo não há nada para fazer» está prestes a ser posta à prova com o lançamento, em outubro, de um guia digital dedicado aos locais mais singulares do Grão-Ducado. O projecto, concretizado sem qualquer apoio institucional, nasceu da pressão dos próprios seguidores do criador de conteúdos Micas Carvalho, luso-descendente nascido no Luxemburgo e filho de pais portugueses, que revelou a novidade em entrevista ao Letzebuerg Hoje: «Os followers estavam a pedir um lugar onde podem ter todos os detalhes».
Do kebab às salas esgotadas no Brasil
O percurso do humorista e influencer começou longe do Grão-Ducado. Durante um estágio de mestrado no Brasil — onde viria a concluir a formação em Psicopedagogia —, apaixonou-se pelo país e decidiu ficar. A antiga vocação para o stand-up comedy encontrou aí espaço para crescer: um grande artista em digressão procurava vídeos de candidatos para a sua première, Micas enviou o seu, foi seleccionado e acabou por integrar o espectáculo, passando depois a actuar com um grupo de comédia sediado em Palmas, no estado de Tocantins, antes de arriscar uma carreira independente.
Os primeiros tempos a solo foram modestos: sozinho, conseguia levar apenas três ou quatro pessoas à sala, actuando em espaços improvisados como restaurantes de kebab. Foi precisamente para encher as salas que decidiu, há cerca de oito anos, começar a produzir vídeos, numa altura em que o formato ganhava força no Brasil. A aposta «explodiu» — os conteúdos tornaram-se virais, as salas passaram a esgotar — ainda que, como confessou na mesma entrevista, o stand-up nunca tenha deixado de ocupar o primeiro lugar no seu coração. Antes de regressar à Europa, despediu-se do público brasileiro em grande, com espectáculos perante 750 pessoas — uma das suas actuações no Brasil pode ser vista aqui.
Recomeçar do zero no Grão-Ducado
A chegada ao Luxemburgo, em finais de 2019, obrigou a um novo começo em mais do que um sentido. Na altura, a figura do influencer praticamente não existia no país e a receptividade foi dura: segundo o próprio, cerca de 80% das pessoas apontavam-lhe o dedo e desaconselhavam o caminho, sugerindo antes «um trabalho normal», num banco ou na advocacia. Outros, porém, recordavam-lhe a vocação evidente, alimentada pelo sucesso de um vídeo de pedido de casamento que alcançou 5 milhões de visualizações e chegou a ser exibido nos cinemas luxemburgueses.
A decisão radical de apostar no francês
A adaptação exigiu uma escolha drástica no plano linguístico. Apesar do peso do português no Grão-Ducado, o criador percebeu que a comunicação digital passava pelo francês. Retirou deliberadamente milhares de seguidores brasileiros do seu Instagram para não comprometer o algoritmo — o público lusófono via os vídeos em francês, passava adiante, e o alcance caía — e reconstruiu a audiência a partir do zero. Mais tarde, alargou a produção ao inglês, uma mudança que lhe abriu portas junto de clientes institucionais nas áreas da educação, da saúde e da cultura.
No palco, a transição foi igualmente exigente. O repertório construído no Brasil assentava nas diferenças entre o português europeu e o português brasileiro — material impossível de traduzir para francês, luxemburguês ou inglês. A solução passou por temas universais, como a sexualidade, «que se pode falar em qualquer língua», e por uma adaptação cuidadosa dos textos a cada público. A recepção do público francófono foi, nas suas palavras, incrível: ao contrário da palavra «influência», carregada de conotações negativas, a comédia ao vivo é vista como cultura. O português, ainda assim, nunca foi abandonado — o humorista organiza regularmente espectáculos de stand-up em língua portuguesa no Luxemburgo, onde actuam inclusivamente comediantes luxemburgueses com textos em português, «com um sotaque enorme», uma ousadia que a comunidade portuguesa acolhe com entusiasmo.
Um guia nascido dos seguidores e planos até 2027
Quanto ao e-book, a motivação é quase pessoal. Cansado de ouvir que o Luxemburgo é «chato», «entediante» e sem cultura, começou a produzir vídeos sobre locais únicos do território. O sucesso foi tal que os seguidores pediam um livro onde pudessem encontrar todos os lugares únicos reunidos num único suporte, dando origem ao guia agora anunciado. O criador revelou ter tentado envolver o sector do turismo, sem grande receptividade, pelo que financiou tudo sozinho — com a vantagem, admite, de o retorno financeiro ser inteiramente seu.
Com a empresa fundada há três anos e três meses, prepara-se agora para as primeiras férias reais — dois meses fora do país, para descomprimir — antes de retomar uma agenda preenchida. Mantém há três anos projectos no Dubai, onde integra um grupo de influencers europeus seleccionados para promover os Emirados junto dos seus públicos, num mercado interessado no Luxemburgo pelo seu elevado PIB. A missão passa por desfazer equívocos comuns — muitos julgam que o Dubai é um país ou a sua capital, ignorando a existência de sete emirados. Está ainda em preparação um grande espectáculo de stand-up comedy no Grão-Ducado, previsto para 2027, cujo dossiê já foi enviado ao Ministério da Cultura.


