A presença de uma das mais pequenas nações do planeta no maior palco do futebol internacional converteu-se num episódio de profunda afirmação de identidade, em que a dimensão estritamente desportiva acabou ofuscada pelo simbolismo de um povo que, pela primeira vez, se viu representado num Campeonato do Mundo. Para os milhares de adeptos de Curaçao que rumaram aos Estados Unidos, envoltos na bandeira azul da sua ilha, o resultado pouco importava. O essencial era estar presente — e, apesar da pesada derrota por 7-1 frente à poderosa Alemanha na estreia da competição, muitos garantiam que aquele momento valia por uma vida inteira.
O ambiente em Houston, numa manhã marcada pela humidade e por alguns aguaceiros, foi de festa serena e contagiante. Antes do jogo, adeptos da ilha das Caraíbas de cerca de 160 mil habitantes tiravam fotografias com os xerifes locais, conversavam amistosamente com os rivais alemães e saboreavam sanduíches junto ao estádio. Monique Kroon, doceira de 58 anos que viajou com o marido sem ser sequer grande apreciadora de futebol, resumia o sentimento colectivo: «É algo que não consigo explicar: algo grandioso, algo fora deste mundo.» E acrescentava, sem hesitar: «Se eu morrer amanhã, morrerei feliz.» Mizzuti Werleman, de 48 anos, que trabalha no controlo de tráfego aéreo e se destacava com penas azuis no cabelo, sintetizava a filosofia da claque antes de entrar no recinto: «só por estarmos aqui, já ganhámos.»
Para muitos, a participação ia muito além do desporto e tocava na própria construção da identidade nacional. Michelanca Zuiverloon, jornalista de 36 anos, sublinhava que competir sob a bandeira de Curaçao adquiria um significado acrescido à luz do passado da ilha enquanto antiga colónia neerlandesa, notando que as actuais gerações se tornaram mais patrióticas: «É muito importante que finalmente possamos afirmar-nos como um país independente, separado dos Países Baixos.» Outros realçavam a oportunidade de apresentar a sua terra a uma audiência global que, em muitos casos, desconhecia até a existência da ilha. Tornado o menor país de sempre a alcançar a fase final do torneio, Curaçao mobilizou adeptos dispostos a desembolsar centenas de dólares pelos bilhetes e por voos longe de baratos, muitos decididos a permanecer durante toda a fase de grupos, com novas deslocações já previstas para Kansas City e Filadélfia.
No interior do Estádio de Houston, habitualmente casa dos Texans da NFL, os simpatizantes de Curaçao ocupavam quatro a cinco secções do anel inferior e pequenas porções do andar superior — cerca de sete mil pessoas, largamente superadas pelos adeptos de uma Alemanha com 83 milhões de habitantes e uma das melhores selecções do mundo. Segundo a reportagem do jornal norte-americano The New York Times, o encontro começou como os especialistas anteviam, com um golo madrugador dos germânicos, mas a meio da primeira parte os jogadores de Curaçao ganharam alento e empurraram os adeptos para o estado de êxtase: Livano Comenencia surgiu para um remate forte e certeiro que, depois de tocar nos dedos do guarda-redes alemão, terminou no fundo das redes. O grito que se ergueu da bancada azul fez parecer, por um instante, que Curaçao enchia quase todo o estádio. De facto, a ilha tinha chegado ao Campeonato do Mundo.


