A fragilidade da rede eléctrica na Guiné-Bissau voltou a ficar exposta com dois incêndios registados num curto espaço de tempo no Mercado de Bandim, que destruíram mercadorias e atingiram directamente o sustento de várias famílias. Entre as causas apontadas estão os fios improvisados, a sobrecarga da rede e as ligações deficientes, problemas que muitos comerciantes encaram como o reflexo de uma situação antiga e sem solução à vista. As perdas materiais foram avultadas e reacenderam o debate sobre a segurança das instalações num dos principais centros comerciais da capital.
Para a Associação de Consumidores de Bens e Serviços da Guiné-Bissau (ACOBES), os sinistros eram previsíveis e poderiam ter sido evitados, uma vez que os alertas sobre os riscos não são novidade. «Todos nós sabemos que o Mercado de Bandim apresenta riscos há muito tempo», afirma o secretário-geral da organização, Bambo Sanhá, que defende tratar-se de incidentes que «poderiam ter sido prevenidos há muitos anos, se houvesse uma intervenção neste sentido». O responsável recorda que episódios semelhantes já ocorreram nos mercados de Gabú e Bafatá, e sustenta que é necessário garantir aos consumidores acesso à electricidade a preços mais acessíveis, de modo a reduzir a dependência das ligações ilegais. «É fundamental sensibilizar a população sobre os riscos de má instalação eléctrica. Contudo, a actualização das tarifas é igualmente crucial. Reduzir o preço da energia vai ajudar na diminuição das ligações clandestinas, que claramente prejudicam o rendimento do sector energético», conclui.
O Governo de Transição reconhece que as instalações eléctricas do mercado constituem um risco permanente e admite que o país enfrenta dificuldades em monitorizar as infra-estruturas e em combater o furto de energia. Como resposta, foi anunciada uma operação nacional, já em curso, destinada a identificar e eliminar ligações ilegais, reforçar a fiscalização nos mercados e melhorar a segurança energética. Em visita ao local do incêndio mais recente, o Presidente da Câmara Municipal de Bissau, Umaro Baldé, garantiu que a autarquia trabalha em articulação com a Empresa de Electricidade e Águas da Guiné-Bissau (EAGB) para substituir a rede instalada no espaço e prevenir novos sinistros. «Estamos a trabalhar de forma acelerada, porque nota-se a necessidade de rever todas as instalações do mercado, que foram feitas de forma precária», assegurou.
A situação de Bandim espelha uma realidade mais ampla do sector energético nacional. Apesar dos avanços dos últimos anos, a Guiné-Bissau continua a enfrentar entraves na produção, distribuição e comercialização de energia. O país produz electricidade, sobretudo a partir de centrais térmicas e de projectos de energias renováveis, mas a maior parte do abastecimento provém da rede regional da Organização para a Valorização do Rio Gâmbia (OMVG). As perdas na distribuição e as ligações clandestinas mantêm-se como os principais desafios: segundo a Deutsche Welle, mais de metade da energia fornecida não gera receitas devido ao consumo ilegal, o que limita a capacidade de investimento da EAGB na modernização e expansão da rede.
Perante esse cenário, o director-geral da EAGB, Carlos Alberto Handem, apelou aos cidadãos para que regularizem a sua situação. «Pedimos à população que se aproxime da EAGB para fazer os seus contratos», declarou, recordando que os preços dos contratos de luz e água foram reduzidos para permitir que mais pessoas legalizem o consumo e ajudem a identificar os clientes com contratos válidos. A medida procura inverter a lógica das ligações precárias que, além de minarem as receitas da empresa, estão na origem de grande parte dos riscos de incêndio.
A médio prazo, o país prepara-se para implementar a sua Política Nacional de Energia para o período de 2025 a 2035, com o objectivo de alargar o acesso à electricidade, reduzir as perdas na rede e reforçar a segurança energética nos próximos anos. Os incêndios no Mercado de Bandim tornaram-se, assim, um sintoma visível de um problema estrutural cuja resolução, no entender dos próprios consumidores, exige tanto investimento técnico como uma política tarifária capaz de afastar as ligações clandestinas.


