O acesso gratuito a produtos menstruais tornou-se numa resposta concreta a uma forma de pobreza que raramente chega às manchetes, mas que condiciona o quotidiano de muitas jovens e estudantes no Luxemburgo. É esse o propósito da iniciativa Sangpourcent, criada pelo Planning Familial para colocar kits de protecção menstrual ao alcance de quem deles precisa — sem custos e com o mínimo de obstáculos.
O funcionamento é simples. Quem necessita destes produtos pode dirigir-se ao centro da associação na cidade do Luxemburgo e levantá-los sem pagar nada, enquanto houver stock disponível. A entrega faz-se sob reserva de disponibilidade, de acordo com as condições definidas em cada centro.
Mas porquê um programa destes? A chamada precariedade menstrual é, antes de mais, uma questão de saúde pública, com reflexos no bem-estar e no percurso escolar de milhares de raparigas. Segundo o Planning Familial, cerca de uma em cada três estudantes na Europa tem dificuldade em obter produtos menstruais — uma realidade que se traduz, muitas vezes, em faltas às aulas e em quebras de confiança.
No Grão-Ducado, o problema é agravado pelo tabu que ainda envolve o assunto. E os números não deixam margem para dúvidas. Cerca de 67,5% das raparigas entre os 12 e os 19 anos hesitam em pedir ajuda para arranjar uma protecção no meio escolar; 72% têm a primeira menstruação antes dos 13 anos, mas só metade recebe a informação de que necessita. Oito em cada dez sentem stress ligado ao período quando estão na escola.
O Sangpourcent não se fica pela distribuição de kits. Há também uma vertente pedagógica, pensada para informar as jovens sobre o próprio corpo e desmontar preconceitos. A intenção é reduzir a estigmatização em torno da menstruação e reforçar a auto-estima de cada rapariga — algo que, segundo a associação, começa precisamente pelo acesso à informação.
Desse esforço faz parte um guia prático sobre os diferentes produtos menstruais disponíveis, dos pensos e cuecas menstruais aos tampões, copos e esponjas, com indicações sobre utilização, vantagens e cuidados a ter, entre eles a prevenção da síndrome de choque tóxico. O material pode ser consultado e descarregado junto do Planning Familial.
A iniciativa alinha-se com os objectivos do Plano Nacional de Saúde Afectiva e Sexual, que defende o acesso equitativo aos produtos menstruais e a igualdade na educação. Conta com o apoio da fundação do Planning Familial e do Zonta Club Luxembourg, e prolonga o trabalho de uma estrutura que mantém centros na cidade do Luxemburgo, Esch-sur-Alzette e Ettelbrück. No fundo, uma resposta discreta a uma necessidade básica que continua, para muitas, por resolver.


