Diferentes gerações da música cabo-verdiana encontraram-se no mesmo palco, num momento que celebrou o percurso do género e a passagem de testemunho entre veteranos e novos intérpretes. Foi o Encontro de Vozes. Marcou a segunda noite da 42.ª edição do Festival da Baía das Gatas, em São Vicente, e juntou quatro nomes de peso: Tito Paris, Ceuzany, Diva Barros e Elly Paris.
Tito Paris abriu a sua actuação com «Nha Pretinha», seguindo-se «M’Cria Ser Poeta» e «Dançá Ma Mim Criola», temas que atravessam o seu percurso artístico. Depois foi a vez de Ceuzany. Com o jeito brincalhão que cativou o público, a cantora revisitou «Sem Ninguém», clássico em homenagem a Jorge Neto, e lembrou Cesária Évora ao descalçar-se antes de interpretar «Flor de Paul», arriscando ainda incursões pelas músicas do carnaval mindelense.
Terceira voz da noite, Diva Barros trouxe o registo grave que a distingue. Interpretou «Um Bem Dum Cavakim», «Jazz Criol» e «Mi É Dod Na Bô», dando continuidade a esse diálogo entre épocas que percorre a canção cabo-verdiana. Coube à mais jovem do quarteto, Elly Paris, fechar o Encontro de Vozes, com «Lembranças», «Espiá Bo Oiá», «Ninguém Te Mandá Na Mim» e «El Ê Dju».
Regressar àquele palco depois de 15 anos deixou marca. Tito Paris classificou a actuação como «fantástica». «Esta actuação foi fantástica, correu bem e a junção com a jovem geração é sempre importante, porque nós trocamos experiências e ambas as partes saem mais ricas», afirmou o músico, segundo o Expresso das Ilhas, acrescentando que é «extremamente gratificante quando um jovem vem tocar com o mais velho». Para ele, o contacto entre artistas — dentro e fora do palco — é aquilo que faz a música do arquipélago crescer.
Ceuzany falou da Baía das Gatas como a sua «segunda casa» e aproveitou o momento para deixar um apelo à valorização dos artistas nacionais. Já Diva Barros descreveu o recinto como um espaço «especial», pelo tempo, pelo lugar e pelo movimento que provoca na ilha. «O palco é grande, é antigo, tem uma energia própria, porque talvez seja o palco que já movimentou mais artistas e mais gente. E o povo de São Vicente gosta, porque a Baía traz sempre alegria», sublinhou. A cantora recordou também o impacto económico do certame e lamentou a não realização da edição anterior, cancelada devido à passagem da tempestade Erin. Defendeu a continuidade do festival, sobretudo numa altura em que o país celebra a qualificação dos «Tubarões Azuis» para o Mundial de futebol de 2026.
Para Elly Paris, pisar aquele palco foi a concretização de um sonho que muitos artistas cabo-verdianos partilham. «É uma confirmação de que o artista está a trabalhar e a seguir o bom caminho e que merece estar no maior palco de Cabo Verde e num dos maiores de África», declarou.
O serão não ficou por aqui. Depois do Encontro de Vozes, subiu ao palco o lendário Cabo Verde Show, formado em França, em 1976, por músicos de origem cabo-verdiana, que presenteou a assistência com «Sururu», «Da Li, Da Lá» e «Falal Nha Amigo», entre outros êxitos. Actuou ainda Dieg — nome artístico de Diego Gomes —, cantor, compositor, multi-instrumentista e produtor natural do Mindelo, de uma geração que cruza a tradição com novas sonoridades.
O encerramento coube ao Ferro Gaita, que este ano assinala 30 anos de carreira. A formação levou o funaná ao palco, revisitando temas do primeiro álbum, «Fundu Baxu», editado em 1997, e apresentando canções do trabalho mais recente, «Tokador de Gaita», lançado em junho.
A festa continua. A noite de hoje reúne vozes do carnaval do Mindelo, como Edson Oliveira, Gai, Anísio Rodrigues e Constantino Cardoso, a que se juntam Hélio Batalha, Garry e Tiken Jah Fakoly. No domingo, último dia do Festival Internacional da Baía das Gatas, o palco será de Black Side, Lisandro Cuxi e MC Cabelinho. Esta edição homenageia a Selecção Nacional de Futebol pela prestação rumo ao Mundial de 2026.


