Um remédio transmitido de geração em geração persiste como recurso terapêutico de primeira linha em muitas comunidades timorenses, resistindo ao avanço da medicina convencional e mantendo um lugar central nas práticas de saúde tradicionais do país. Segundo o Diligente Online, o óleo extraído da gordura da píton — conhecido localmente como mina samea — é utilizado para tratar desde dores musculares e articulares até feridas, queimaduras e problemas de pele, sendo particularmente prevalente nas zonas rurais onde o acesso a cuidados médicos é mais limitado.
O processo de produção do óleo exige conhecimento e destreza. Justino da Silva, habitante de Watulari, no município de Viqueque, explicou ao Diligente Online que a captura da píton requer cautela: após imobilizar o animal, o corpo é suspenso numa árvore para permitir que o sangue escorra, antes de se remover a pele e extrair a gordura com precisão. Esta é então cortada em pequenos pedaços e aquecida num recipiente metálico até produzir o óleo. O mesmo habitante ressalva que apenas espécimes jovens e saudáveis fornecem quantidades consideráveis de gordura, e que a principal dificuldade reside precisamente na captura do réptil. “Quando se sentem ameaçadas, escondem-se. Normalmente, só as apanhamos quando estão a alimentar-se. Por isso, é necessário contar com a sorte”, afirmou.
Para além do seu valor medicinal, o mina samea representa uma fonte de rendimento para os produtores. A escassez da produção faz com que um frasco de cerca de 150 ml seja comercializado a cinco dólares em zonas rurais, podendo atingir os 20 dólares na capital, Díli, onde comerciantes como António Pinto adquirem o produto em regiões como Same para o revender. A carne da cobra, segundo o Diligente Online, também é aproveitada e consumida com frequência nas comunidades. A procura crescente reflecte-se em testemunhos como o de Eufrásia da Silva, que após um acidente de mota recorreu ao óleo em paralelo com o tratamento hospitalar, relatando uma cicatrização mais rápida e redução do inchaço, e o de Sipriana de Jejus, massagista tradicional que o utiliza regularmente no tratamento de fracturas e distensões.
Porém, a comunidade médica timorense apela à prudência. Um médico contactado pelo Diligente Online, que optou pelo anonimato, alertou que não existem estudos laboratoriais que comprovem cientificamente a eficácia terapêutica do óleo de cobra, sublinhando que cada animal possui o seu próprio veneno e que o produto não deve substituir o tratamento médico convencional. “Desde tempos antigos que o óleo de cobra é utilizado como remédio, mas os riscos para a saúde permanecem incertos”, concluiu, numa advertência que ilustra a tensão entre o saber ancestral e os critérios da medicina baseada em evidências.


