Uma história com mais de dois mil anos, uma economia em rápida transformação e uma tradição marítima que atravessa séculos fazem de Fuzhou uma das cidades chinesas mais interessantes para compreender a evolução da China contemporânea. Capital da província de Fujian, no sudeste do país, Fuzhou combina bairros históricos, grandes projectos tecnológicos e uma crescente abertura internacional. Situada junto ao rio Min, a cidade foi durante séculos um importante centro comercial, ligado às antigas rotas marítimas asiáticas. Hoje, com cerca de 8,5 milhões de habitantes, procura consolidar a sua posição na economia digital, na indústria e no comércio internacional, sem abandonar uma identidade cultural profundamente enraizada.

O passado continua presente nas ruas de Sanfang Qixiang, o célebre bairro das «Três Ruelas e Sete Vielas», onde residências tradicionais e edifícios das dinastias Ming e Qing recordam a importância histórica da cidade. Fuzhou destacou-se também pelo comércio do chá, pela construção naval e pela sua ligação aos mercados estrangeiros, particularmente a partir do século XIX. O antigo complexo naval de Mawei, criado em 1866, tornou-se um símbolo dos primeiros esforços de modernização industrial da China. Esta herança marítima aproxima a história de Fujian da expansão comercial portuguesa na Ásia, iniciada no século XVI, embora Macau tenha sido o principal ponto de encontro entre Portugal e a China. A gastronomia local, o chá de jasmim, os trabalhos em laca e a escultura em pedra de Shoushan continuam a testemunhar uma cultura regional distinta.
A Fuzhou actual apresenta uma realidade muito diferente daquela que os comerciantes estrangeiros conheceram há dois séculos. Novas infra-estruturas, universidades, parques tecnológicos e zonas industriais transformaram a paisagem urbana. A cidade aposta na inteligência artificial, na economia digital, nas tecnologias marítimas e na inovação industrial, procurando reforçar a sua participação nas cadeias internacionais de produção e comércio. Para quem observa esta transformação a partir do Luxemburgo, as diferenças de dimensão são evidentes, mas existem interesses comuns. O Grão-Ducado desenvolveu uma economia internacionalizada, apoiada nos serviços financeiros, na logística e na inovação, enquanto Fuzhou procura aproveitar a sua posição geográfica e capacidade industrial para atrair investimento e desenvolver novas actividades económicas.
A perspectiva lusófona acrescenta outra dimensão a esta história. Portugal mantém relações históricas com a China, enquanto Macau continua a representar uma ponte cultural e linguística entre o mundo chinês e os países de língua portuguesa. Angola, Moçambique, Brasil e outras economias lusófonas também participam, de diferentes formas, nas relações comerciais e diplomáticas com Pequim. Neste contexto, Fuzhou oferece oportunidades de conhecimento e aproximação nos sectores marítimo, tecnológico, educativo e cultural. Para a comunidade lusófona residente no Luxemburgo, e também para toda a comunidade do Grão-Ducado, conhecer esta região significa compreender melhor uma China que vai muito além de Pequim, Xangai ou Shenzhen, descobrindo cidades onde a tradição convive diariamente com algumas das transformações mais profundas da economia mundial.
O futuro de Fuzhou estará igualmente em destaque no Fórum de Cooperação dos Media «Uma Faixa, Uma Rota» de 2026, que reúne representantes da comunicação social de diferentes países para debater a cooperação jornalística, a inteligência artificial, a partilha de informação e o intercâmbio cultural. O Lëtzebuerg Hoje foi convidado pelo Diário do Povo (People’s Daily) a participar neste encontro, em representação da comunicação social de língua portuguesa do Luxemburgo. A presença do jornal permitirá acompanhar os debates e observar directamente a realidade chinesa. Para o seu editor, que viveu na China entre 1997 e 2014 e trabalhou para o Governo chinês entre 2005 e 2014, a deslocação representa também um regresso pessoal a um país que conheceu durante um período de grandes mudanças. Doze anos depois, a intenção é descobrir o que mudou, ouvir as pessoas e transmitir aos leitores uma perspectiva próxima da vida quotidiana, sem esquecer a história, as tradições e as ligações ao mundo lusófono.
Entre os telhados antigos de Sanfang Qixiang e os edifícios modernos que acompanham o rio Min, Fuzhou revela diferentes faces de uma China em permanente evolução. O passado marítimo, a modernização industrial e as ambições tecnológicas ajudam a compreender o caminho percorrido, mas também os desafios que permanecem, desde a preservação do património até à sustentabilidade do crescimento económico. Para o Luxemburgo e para a comunidade lusófona, acompanhar esta transformação representa uma oportunidade de conhecer melhor uma região com uma longa tradição de abertura ao exterior. Fuzhou não é apenas uma cidade que preserva a memória de antigas rotas comerciais. É também um lugar onde se procura desenhar o futuro das relações entre a China e o resto do mundo.



