A educação em São Tomé e Príncipe perdeu uma das suas figuras mais marcantes com a morte do professor Galino Quaresma Vaz de Almeida, conhecido como «Sun Galino», falecido aos 103 anos. Considerado um dos grandes impulsionadores da alfabetização no arquipélago, dedicou várias décadas da sua vida ao ensino, incluindo nas comunidades mais isoladas. Trabalhou ao lado do pedagogo e filósofo brasileiro Paulo Freire, que visitou São Tomé e Príncipe em várias ocasiões entre 1975 e 1990, contribuindo para a concepção e aplicação de políticas públicas de alfabetização de adultos. Segundo o jornal Téla Nón, o percurso de Galino ficou marcado por uma dedicação excepcional à educação e à valorização das culturas locais.
Uma das experiências mais significativas da sua carreira aconteceu em Monte Mário, no sul da ilha de São Tomé, onde conseguiu estabelecer uma relação de confiança com a comunidade angolar, tradicionalmente reservada no contacto com outros grupos sociais. Aprendeu a língua local, familiarizou-se com os costumes e adaptou os materiais pedagógicos à realidade dos habitantes. Não se limitou a ensinar. Tornou-se também conselheiro, enfermeiro e uma figura paternal para muitas famílias. Nascido a 23 de Março de 1923, filho de Manuel do Espírito Santo Vaz de Almeida e de Mónica Quaresma, iniciou os estudos apenas aos 14 anos, numa «Escola de Mato», devido às dificuldades económicas e sociais da época. Prosseguiu a formação na escola pública da Vila de Santana e numa escola de artes e ofícios, onde teve como professor Atanásio Gomes.
A vocação para o ensino concretizou-se na década de 1940, quando começou a trabalhar como professor numa «Escola de Mato», frequentada sobretudo por crianças autóctones. Ao longo da carreira, leccionou em localidades como Diogo Vaz, Batepá, Santana, Bombom e Almas, deixando uma marca profunda em sucessivas gerações de alunos. Nem a reforma o afastou das salas de aula. Continuou a ensinar em casa, recorrendo aos métodos tradicionais que conhecera na juventude. O seu testemunho sobre a história da educação são-tomense revelou-se igualmente valioso para a investigação académica, tendo contribuído para a tese de doutoramento da investigadora brasileira Cecília de Sousa Reibnitz, dedicada à história da alfabetização no país.
A última sala de aula de «Sun Galino» funcionava de forma improvisada em Cova Barro, nos arredores da capital são-tomense. Foi ali que continuou a transmitir conhecimentos, mesmo numa idade avançada, mantendo viva uma missão iniciada mais de oito décadas antes. Sepultado no cemitério da Trindade, o professor deixa um legado que ultrapassa a aprendizagem da leitura e da escrita, abrangendo também a integração comunitária e a preservação da identidade cultural angolar. A sua morte recupera uma conhecida expressão da sabedoria africana, evocada pelo Téla Nón, segundo a qual a partida de um ancião representa a perda de uma biblioteca inteira. Para São Tomé e Príncipe, desaparece um educador cuja vida foi dedicada a abrir oportunidades através do conhecimento.



