Trocar uma carreira profissional estável pela incerteza de um negócio próprio exige coragem. Fazer essa escolha num país estrangeiro, longe da família e das referências de uma vida inteira, torna o desafio ainda maior. Foi esse o caminho percorrido por Denise Silva, Brasileira de nascimento, portuguesa por causa do avô paterno, e luxemburguesa depois de ter sido aprovada, no ano passado, no sproochentest. Fundadora da Aeclectica, Denise transformou a paixão pelo movimento e pelo bem-estar num projecto empresarial que hoje reúne 12 instrutores. O sucesso não apareceu de um dia para o outro. Por detrás desta conquista estão várias mudanças de país, decisões difíceis, sacrifícios pessoais e uma determinação que começou a ganhar forma muito antes de chegar ao Grão-Ducado.
A capacidade de recomeçar faz parte da sua história familiar. Nascida no Brasil, Denise tinha nove anos quando os pais decidiram abandonar São Paulo e procurar uma vida mais tranquila numa pequena cidade junto ao mar. A mudança trouxe-lhe uma infância feliz, mas também os primeiros exemplos de coragem empresarial. O pai deixou um emprego para trabalhar por conta própria e teve de reconstruir a sua actividade várias vezes. Anos mais tarde, perante novas preocupações com a segurança, a família decidiu procurar oportunidades em Portugal. A primeira a partir foi uma das irmãs, ainda para frequentar o ensino secundário. Seguiram-se outros familiares, até Denise se instalar em Coimbra, onde estudou Relações Internacionais na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. A vida profissional levou-a depois a Lisboa, onde construiu uma carreira sólida na Universidade Católica Portuguesa, onde trabalhou na formação de executivos em projectos internacionais e desenvolvimento de projectos de ensino digital. Em 2019, quando atravessava uma fase particularmente positiva da carreira, surgiu uma oportunidade no Banco Europeu de Investimento, no Luxemburgo. Aceitou o desafio. Deixou para trás colegas, clientes, estabilidade e perspectivas de progressão profissional, sem garantias de que o futuro seria melhor.

A chegada ao Luxemburgo trouxe uma nova realidade. Denise instalou-se sozinha, enfrentou as dificuldades de adaptação e teve de construir praticamente tudo de novo, desde a rede de contactos até ao mobiliário da própria casa. Recorda com especial carinho a solidariedade encontrada entre portugueses e brasileiros, que a ajudaram a ultrapassar os primeiros obstáculos. Ter um apartamento só seu representou uma vitória pessoal, sobretudo depois das dificuldades habitacionais que conhecera em Lisboa. A pandemia alterou rapidamente a experiência profissional que tinha imaginado. O trabalho à distância passou a dominar o quotidiano e foi precisamente nesse período que o ioga ganhou uma importância inesperada na sua vida. Aquilo que começou como uma forma de encontrar equilíbrio tornou-se uma verdadeira paixão. Fez formação em Portugal para se tornar instrutora e começou a dar aulas em diferentes espaços do Luxemburgo, conciliando essa actividade com as responsabilidades profissionais no Banco Europeu de Investimento, onde trabalhou durante quatro anos. Os dias tornaram-se longos, as deslocações cansativas e o tempo cada vez mais escasso. A actividade que deveria proporcionar tranquilidade estava, afinal, a transformar-se numa nova fonte de desgaste.
A ideia de criar um espaço próprio começou a ganhar força com o incentivo do homem que viria a tornar-se seu marido. Denise procurou instalações em Belval, mas os custos das rendas comerciais tornavam o investimento demasiado arriscado. Não desistiu. A oportunidade surgiu em 2023, quando foi contactada pelos responsáveis do BlockX, que lhe propuseram a utilização de salas mediante pagamento à hora. Era a solução que procurava para começar sem assumir encargos fixos incomportáveis. Em Novembro de 2023, abriu o seu projecto, inicialmente com modalidades como ioga aéreo, suspensão fitness, Strong e bungee fitness. No BlockX começou sozinha com o projecto, mas desde o inicio conseguiu que as outras três instructoras também dessem aulas durante as semanas. Uma mantém-se desde o início, a Grazia. Durante os primeiros dois anos, Denise desenvolveu a actividade como trabalhadora independente, antes de formalizar a empresa. O percurso esteve longe de ser simples. Construir uma clientela, gerir horários, encontrar instrutores e assegurar a sustentabilidade financeira exigiu competências muito diferentes daquelas que utilizava na sua carreira anterior.

Hoje, a Aeclectica representa muito mais do que uma mudança de profissão. É o resultado de uma vida marcada pela capacidade de adaptação, pela aprendizagem constante e pela vontade de transformar dificuldades em oportunidades. A equipa cresceu para 12 instrutores, uma delas parceira de negócio, Valeria Fatteri, e duas das três salas arrendadas exclusivamente dedicadas ao Pilates (Reformer e Apparatus), um sinal da evolução de um projecto que começou com uma única pessoa e uma ideia ainda por concretizar. Denise não esconde que gerir uma empresa continua a ser exigente e que o empreendedorismo implica responsabilidades, incertezas e muito trabalho. A experiência profissional em projectos de empreendedorismo social no Banco Europeu de Investimento também deixou marcas na forma como encara o negócio. Mais do que criar uma actividade rentável, pretende contribuir para melhorar a vida das pessoas através do movimento e do bem-estar. Da infância no Brasil aos estudos em Coimbra, da carreira em Lisboa à construção de uma empresa no Luxemburgo, a sua história mostra que o sucesso nem sempre significa seguir o caminho mais seguro. Às vezes, significa ter coragem para abandonar aquilo que já se conquistou e começar novamente, mesmo sem saber exactamente o que vem a seguir.



