A inteligência artificial está a transformar as relações económicas entre o Luxemburgo e a China, abrindo novas oportunidades de cooperação empresarial, mas também levantando desafios relacionados com a protecção de dados, a soberania digital e a regulamentação. A necessidade de agir rapidamente, sem comprometer a segurança nem o controlo humano, dominou uma conferência organizada pela Câmara de Comércio China-Luxemburgo (CHINALUX), com o apoio da Deloitte, que reuniu especialistas, empresários e responsáveis institucionais.
O Lëtzebuerg Hoje esteve presente na conferência, na qualidade de órgão de comunicação social convidado, acompanhando as apresentações e os debates realizados nas instalações da Deloitte, em Gasperich. O encontro contou com a participação de Jacques Bortuzzo, presidente da CHINALUX, e Zhu Weiye, encarregado de negócios interino da Embaixada da China no Luxemburgo. Nicolas Griedlich e Liubomyr Bregman, da Deloitte Luxembourg, analisaram a evolução mundial da inteligência artificial, destacando a passagem desta tecnologia para uma fase de aplicação industrial.

Uma das mensagens mais fortes da noite foi dirigida às empresas que continuam à espera da solução perfeita. É preciso começar já. Durante o debate, um dos especialistas defendeu que experimentar, cometer erros e voltar a tentar faz parte do processo de inovação. Na sua perspectiva, muitas empresas europeias perdem tempo à procura de sistemas ideais, enquanto concorrentes internacionais avançam com projectos mais pequenos, testam resultados e corrigem falhas. O conselho foi directo: começar com experiências controladas, aprender com os resultados e desenvolver progressivamente soluções mais ambiciosas.
A escolha dos modelos de inteligência artificial também mereceu atenção. Anthony Necker, da LuxProvide, explicou que não existe necessariamente um modelo universalmente superior. A tecnologia mais avançada hoje pode deixar de o ser amanhã. O essencial é encontrar a solução adequada às necessidades de cada empresa e garantir a possibilidade de a substituir quando surgirem alternativas mais eficazes. Outros intervenientes reforçaram esta posição, lembrando que modelos mais pequenos podem executar determinadas tarefas com menores custos e sem exigir infra-estruturas informáticas gigantescas.
A soberania digital foi outro dos pontos centrais. Para Anthony Necker, ser soberano não significa apenas armazenar dados no Luxemburgo, mas sobretudo manter o controlo sobre a sua utilização e preservar a liberdade de escolha tecnológica. Uma empresa deve conseguir mudar de fornecedor ou de modelo sem perder o domínio sobre as suas informações. Esta flexibilidade foi apresentada como uma condição fundamental para evitar dependências excessivas num mercado em rápida transformação.

A regulamentação europeia não deve ser encarada como um obstáculo à inovação. Foi esta a posição defendida por Alain Herrmann, da Comissão Nacional para a Protecção de Dados (CNPD), que recordou que o Regulamento Geral sobre a Protecção de Dados já se aplica aos sistemas de inteligência artificial que utilizam informações pessoais. O responsável alertou para a necessidade de integrar os requisitos legais desde a concepção dos projectos, evitando que as empresas tenham posteriormente de reconstruir soluções tecnológicas, com custos acrescidos.
O regulador destacou ainda os instrumentos disponíveis no Luxemburgo para apoiar a inovação. Entre eles encontram-se ambientes de experimentação supervisionados, formação gratuita, aconselhamento especializado e iniciativas que aproximam juristas, investigadores, empresários e especialistas tecnológicos. Herrmann explicou que determinados sistemas podem ser testados em condições reais, com acompanhamento regulamentar, permitindo identificar riscos antes da sua comercialização. A confiança, insistiu, não resulta de uma simples certificação no final do processo. Constrói-se desde o primeiro dia.
A experiência chinesa despertou particular interesse. Um dos intervenientes, com 18 anos de experiência profissional em empresas chinesas, destacou a dimensão do mercado, a rapidez de adopção tecnológica e a integração dos serviços digitais como vantagens competitivas. Com cerca de 1,4 mil milhões de habitantes, a China permite testar aplicações a uma escala incomparavelmente superior à de muitos mercados europeus. O especialista referiu ainda que a utilização generalizada dos telemóveis e a integração entre aplicações, redes e sistemas empresariais permitem desenvolver e colocar novos serviços no mercado com grande rapidez.

A velocidade tem, contudo, um preço. A inovação tecnológica avança frequentemente mais depressa do que a capacidade de adaptação das empresas e das sociedades. Durante o debate, foi defendida a criação de ecossistemas locais que envolvam reguladores, fornecedores tecnológicos, investigadores e empresas. A colaboração entre estes diferentes intervenientes foi apresentada como uma forma de acelerar a adopção da inteligência artificial sem comprometer a segurança dos sistemas ou a protecção dos utilizadores.
O investimento público também foi destacado. A fábrica de inteligência artificial do Luxemburgo, apoiada por investimentos nacionais e europeus, foi apresentada como uma oportunidade para democratizar o acesso à tecnologia. Para além das infra-estruturas de cálculo, o projecto disponibiliza formação, acompanhamento estratégico e conhecimentos especializados, permitindo que empresas de diferentes dimensões iniciem a sua transformação digital.
Na parte final da conferência, Yves Knel, sócio da Deloitte Luxembourg, sintetizou as principais mensagens em cinco conceitos: confiança, escolha, modelo adequado, tempo e factor humano. A intervenção sublinhou que a inteligência artificial deve responder a problemas concretos das empresas, com objectivos definidos, responsáveis identificados e resultados mensuráveis. A tecnologia, por si só, não garante qualquer benefício económico. Também a governação, as infra-estruturas e a integração dos sistemas devem ser consideradas desde o início.
A dimensão humana mereceu especial destaque. Apesar dos avanços tecnológicos, os participantes defenderam que as pessoas continuam a desempenhar um papel indispensável na tomada de decisões, na interpretação dos resultados e na construção de relações comerciais. Yves Knel recordou que as ligações económicas entre o Luxemburgo e a China já são particularmente fortes no sector bancário e na emissão de obrigações, considerando que a inteligência artificial poderá constituir uma nova ponte entre os dois mercados.



