Um dos edifícios mais emblemáticos da presença portuguesa em Macau volta a abrir as portas ao público nos dias 10 e 11 de Outubro de 2026, numa oportunidade rara de visitar o antigo Palácio do Governo, habitualmente reservado a funções protocolares. A iniciativa mantém viva uma tradição que remonta aos tempos da administração portuguesa e permite conhecer o cenário de um dos momentos mais marcantes da história contemporânea do território. Foi aqui que, a 19 de Dezembro de 1999, a bandeira de Portugal foi arreada pela última vez, poucas horas antes da cerimónia oficial de transferência da soberania para a República Popular da China. Foi também neste local que ficou registada uma das fotografias mais simbólicas dessa despedida: o último Governador de Macau, o falecido general Vasco Rocha Vieira, segurando junto ao peito a bandeira nacional depois de esta ter sido retirada do mastro. Uma imagem que atravessou gerações e que continua a representar, para muitos portugueses, o encerramento de mais de quatro séculos de administração portuguesa em Macau.

Situado na Avenida da Praia Grande, junto ao Lago Nam Van, o actual Palácio Protocolar do Governo da Região Administrativa Especial de Macau conserva a sua característica fachada cor-de-rosa e a arquitectura de influência portuguesa. Durante a administração portuguesa, o edifício funcionava como local de trabalho do Governador e acolhia também sessões plenárias da Assembleia Legislativa. Há um pormenor curioso que ainda hoje pode ser observado no telhado: os três mastros que assinalavam a presença das autoridades e os símbolos oficiais do território. Ao centro era hasteada a bandeira de Portugal, actualmente a da República Popular da China, à esquerda a bandeira de Macau, actualmente a da Região Administrativa Especial de Macau, e à direita a bandeira do Governador. Esta última tinha um significado particular, pois só era hasteada quando o Governador se encontrava no edifício, assinalando assim a sua presença. Um pequeno detalhe do quotidiano institucional de Macau que ajuda a compreender a importância política e administrativa que este palácio teve até Dezembro de 1999. A abertura ao público permitirá conhecer algumas das suas salas mais representativas, incluindo a Sala de Lótus, a Sala Polivalente e o imponente salão do primeiro andar, acessível através de uma escadaria de mármore. O percurso contempla igualmente as salas Verde, Amarela e Azul, utilizadas em cerimónias e recepções oficiais, bem como os jardins, normalmente inacessíveis à população. As visitas decorrem entre as 9h00 e as 18h00, com entrada pela Travessa do Paiva, após os habituais controlos de segurança.

A edição deste ano apresenta uma exposição floral subordinada ao tema «Convivência com a Natureza — Macau Harmoniosa», reunindo mais de 20 espécies de flores e plantas destinadas a atrair borboletas. O programa inclui concertos da Banda de Música da Polícia de Segurança Pública e actuações de alunos das escolas de Música e de Dança do Conservatório de Macau. Na Sala Polivalente estará patente uma exposição dedicada ao terceiro Plano Quinquenal da Região Administrativa Especial de Macau, com fotografias, vídeos e painéis explicativos sobre as prioridades de desenvolvimento e quatro grandes projectos previstos. Segundo as informações divulgadas pelo Governo de Macau, serão igualmente distribuídas lembranças aos visitantes e disponibilizado um serviço postal temporário com carimbo comemorativo. A iniciativa permite conjugar património, cultura e entretenimento num espaço que raramente pode ser visitado e onde ainda se encontram numerosos testemunhos da história administrativa do território.
Para a comunidade portuguesa residente no Luxemburgo, esta abertura anual representa uma oportunidade de reencontro com uma parte importante da história da Lusofonia. Percorrer os salões e jardins do antigo Palácio do Governo é também recordar aquele Dezembro de 1999, quando o general Rocha Vieira se despediu de Macau com a bandeira portuguesa junto ao peito, numa fotografia que se tornou inseparável da memória da transferência de soberania. Os três mastros no telhado, as salas onde decorreram reuniões políticas e os espaços onde trabalharam sucessivos governadores portugueses fazem deste edifício muito mais do que uma atracção turística. Quem estiver por Macau nos dias 10 e 11 de Outubro não deve perder esta oportunidade. E quem estiver a planear uma viagem ao território no próximo ano fará bem em guardar esta tradição na agenda e acompanhar o anúncio das datas da edição de 2027. Afinal, não é todos os dias que se pode entrar num edifício onde se escreveu uma página tão marcante da história portuguesa e do Mundo. Só por isso, merece a visita.



