A economia mundial entrou numa fase de profundas transformações, em que a inteligência artificial, a escalada da dívida pública, a competição por recursos e o enfraquecimento do multilateralismo estão a alterar equilíbrios construídos ao longo de décadas. O cenário foi traçado esta quinta-feira, no Luxemburgo, pelo economista Andrei Rădulescu, durante o EFPA Finance Forum 2026 dedicado ao Wealth Management & Wealth Planning.
Convidado a analisar a macroeconomia no contexto global, Rădulescu, Senior International Economist e Senior Researcher do Institute for World Economy da Romanian Academy, apresentou na Câmara de Comércio do Luxemburgo uma leitura marcada por riscos geopolíticos e mudanças estruturais. O encontro de 24 de Setembro reuniu especialistas dos sectores financeiro, bancário, jurídico e da gestão de patrimónios, com particular atenção às consequências do actual contexto internacional.
A expressão escolhida pelo economista é clara: o mundo atravessa uma “era de grandes transformações”. O regresso da geoeconomia acontece em paralelo com a rápida implementação da inteligência artificial, enquanto níveis elevados de incerteza coexistem, de forma aparentemente contraditória, com uma melhoria da confiança.
Há ainda uma divergência crescente entre os principais blocos económicos. Ao mesmo tempo, o fraco crescimento potencial combina-se com uma tendência de aumento do peso da dívida pública no PIB, criando um ambiente particularmente delicado para governos, empresas, investidores e consumidores.
A inteligência artificial ocupa um lugar central nesta mudança. Rădulescu considera a IA o mais recente “recurso estratégico” da economia mundial, capaz de transformar fluxos económicos, gerar choques de produtividade e produzir impactos muito diferentes consoante os países e regiões.
Os números apresentados durante o EFPA Finance Forum revelam também fortes diferenças na capacidade computacional ligada à inteligência artificial entre os Estados Unidos, a União Europeia e o restante mundo. A tecnologia deixa, assim, de ser apenas uma ferramenta de produtividade para assumir também uma dimensão de competição económica e geopolítica.
A posição da Europa merece particular atenção nesta análise. Rădulescu caracterizou a União Europeia como “a perdedora das corridas globais”, numa referência aos desafios estruturais enfrentados pelo bloco num cenário em que Estados Unidos e China disputam tecnologia, recursos, investimento e influência económica.
Para a Zona Euro, a própria inteligência artificial poderá, contudo, constituir parte da resposta. Isso dependerá da capacidade europeia para converter a adopção tecnológica em ganhos efectivos de produtividade e competitividade.
As finanças públicas constituem outro sinal de alerta. O economista chamou a atenção para a deterioração das contas públicas nas maiores economias, começando pelos Estados Unidos, num contexto em que um crescimento mais lento convive com níveis de dívida cada vez mais elevados.
A possibilidade de esta trajectória desembocar numa nova crise global é uma das questões colocadas na apresentação. Rădulescu assinalou também aquilo que considera ser um fosso insustentável entre “Wall Street” e “Main Street”, numa alusão à distância entre o comportamento dos mercados financeiros e a realidade económica sentida pelos consumidores.
O multilateralismo enfrenta igualmente pressões. Segundo a análise apresentada no Luxemburgo, a crescente competição pelo acesso a recursos, a militarização e as mudanças nas relações económicas entre os grandes blocos estão a alterar a arquitectura da economia internacional. Os dados mostrados por Rădulescu colocam lado a lado o aumento das despesas militares e o financiamento verde, ilustrando a transformação das prioridades internacionais num período de fortes tensões geopolíticas.
Também o sistema monetário internacional poderá estar à entrada de uma nova etapa. Entre os desafios identificados encontram-se possíveis alterações da arquitectura monetária mundial e o forte crescimento da procura por stablecoins.
Para os profissionais da gestão de patrimónios presentes no EFPA Finance Forum, estas tendências acrescentam novas variáveis a decisões de investimento já condicionadas pelas taxas de juro, dívida pública, evolução das moedas, geopolítica, inteligência artificial e crescente divergência entre economias.
Nem todos os sinais são negativos. Rădulescu destacou a resistência demonstrada pela economia mundial perante sucessivos choques e preferiu terminar a intervenção com “desafios em vez de conclusões”. Entre esses desafios está uma competição cada vez mais intensa pelo acesso aos recursos, que poderá ser ainda mais pressionada pela expansão da inteligência artificial.
A dimensão humana também entrou na análise. Um dos últimos indicadores apresentados mostra que o índice da fome melhorou ao longo das últimas décadas, embora permaneça elevado em várias regiões. A mensagem acompanha uma das frases escolhidas pelo economista para abrir a apresentação: paz, prosperidade e planeta são indivisíveis.
Perante a acumulação de riscos — dívida, militarização, fragmentação económica, disputa por recursos e enfraquecimento das estruturas multilaterais — Rădulescu apontou para a necessidade de recuperar as raízes da cooperação económica internacional. A proposta passa por um novo “momento Bretton Woods”, capaz de evitar uma ruptura da actual ordem económica mundial.
A intervenção de Andrei Rădulescu foi um dos momentos centrais do EFPA Finance Forum 2026, que decorreu esta quinta-feira, 24 de Setembro, no Luxemburgo. O programa contempla ainda debates sobre alocação de activos no actual contexto geopolítico, imobiliário e gestão de patrimónios, seguros de vida, criptoactivos, regulação financeira e estratégias flexíveis no mercado obrigacionista.



