A memória de uma das indústrias que ajudaram a sustentar Macau durante boa parte do século XX regressa ao primeiro plano com a exposição «Um Século de Esplendor da Fábrica de Panchões Iec Long — Exposição sobre a Memória Histórica e Estética da Era dos Panchões de Macau», patente até 29 de Novembro. A mostra assinala o centenário da antiga fábrica Iec Long e percorre a história, as técnicas artesanais, os documentos, os objectos e as recordações deixadas por uma actividade que chegou a marcar profundamente a economia local. Segundo o Turismo de Macau, a exposição pode ser visitada gratuitamente, das 11h00 às 19h00, na Sands Gallery, no sexto piso do The Grand Suites at Four Seasons.
Muito antes dos casinos e dos grandes empreendimentos turísticos, os panchões eram negócio sério. A documentação histórica em português aponta para a existência de uma primeira fábrica no território por volta de 1880, numa época em que estas unidades estavam sujeitas às regras industriais da administração portuguesa e eram classificadas entre os estabelecimentos de maior risco. Em 1913 existiam já sete fábricas e, nas décadas seguintes, a produção ganhou peso nas exportações. A indústria acelerou sobretudo a partir dos anos 1920, com a Taipa a transformar-se no principal núcleo fabril. Entre as décadas de 1950 e 1970 chegou a ser uma fonte de sustento fundamental para numerosas famílias; um registo estatístico de 1960 contabilizava 3.969 trabalhadores ligados ao sector.
É precisamente essa Macau industrial, chinesa e simultaneamente moldada por séculos de presença portuguesa na Ásia, que ajuda a compreender o interesse da exposição. Os panchões pertencem à tradição cultural chinesa, não à portuguesa, mas a sua produção em Macau desenvolveu-se dentro de uma cidade onde instituições, legislação, comércio e comunidades chinesa e portuguesa coexistiram durante gerações. A mostra recupera ferramentas, invólucros, imagens históricas, livros de contas, correspondência, declarações aduaneiras e diários de fábricas como Iec Long, Kuan Iec e Wang Iec. Há também representações do processo artesanal de fabrico. Segundo a informação oficial da exposição, estes materiais permitem acompanhar tanto a destreza dos trabalhadores como a ascensão e o declínio de uma actividade que fez da Taipa uma verdadeira «ilha dos panchões».
A própria Iec Long resume essa transformação. Fundada em 1925, encerrou a actividade em 1984 e o seu antigo complexo, com cerca de 25 mil metros quadrados, conserva ainda a disposição das oficinas, sendo apresentado pelo Instituto Cultural como o único património da indústria de panchões de Macau que permanece preservado de forma particularmente completa. O declínio do sector começou em meados da década de 1970, quando trabalhadores procuraram empregos mais seguros e rentáveis na indústria do vestuário e os mercados externos se tornaram mais competitivos e restritivos. O fabrico de panchões apareceu pela última vez no Anuário Estatístico de Macau em 1981. Décadas depois, a recuperação do antigo complexo Iec Long devolveu ao público parte desse universo: o passadiço da fábrica abriu em Dezembro de 2022, permitindo voltar a percorrer fisicamente um pedaço da história laboral da Taipa.
Para quem planeia viajar em breve pelo Sul da China, esta é uma oportunidade difícil de repetir. Entre a memória dos operários chineses, a antiga arquitectura industrial, os arquivos produzidos durante a administração portuguesa e a estética exuberante das embalagens e marcas de panchões, a exposição mostra uma Macau muito diferente daquela que hoje domina os folhetos turísticos. E a visita pode prolongar-se na própria Taipa: o antigo recinto da Iec Long conserva um passadiço de cerca de 400 metros, galeria e espaços recuperados, num lugar onde ainda se percebe a escala de uma indústria que atravessou gerações. Para visitantes portugueses e lusófonos, há ainda outra camada de leitura: descobrir como uma tradição profundamente chinesa cresceu numa cidade marcada durante séculos pelo encontro entre Portugal e a China.



