Uma tecnologia de raios X substituiu no Brasil um irradiador com Cobalto-60 utilizado durante mais de meio século em investigações sobre esterilização de insectos, modificação de plantas e conservação de alimentos. Segundo o Jornal da USP, o antigo equipamento do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA) deixou definitivamente as instalações a 10 de Julho de 2025, depois de ter servido inúmeros projectos científicos, dos quais resultaram artigos, teses e dissertações.
A retirada exigiu uma operação delicada. Instalado em Novembro de 1974 com a participação do investigador Júlio, o irradiador guardava 36 cápsulas de Cobalto-60 numa blindagem de chumbo de 5,4 toneladas. Depois de removida do bunker, a estrutura foi selada numa caixa de contenção e colocada num camião-guindaste articulado. Seguiu-se uma viagem superior a seis horas até ao depósito de rejeitos radioactivos do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear, da Comissão Nacional de Energia Nuclear, em Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais. Os custos da complexa operação de transporte foram partilhados pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos, através do Programa Tecnologias Alternativas.
A mudança começou a ganhar forma com o trabalho de Thiago de Araújo Mastrangelo, investigador que entrou no CENA em 2015 e procurava uma solução para a perda progressiva de actividade radioactiva do Cobalto-60, que ameaçava a continuidade das experiências no Laboratório de Irradiação de Alimentos e Radioentomologia. Em 2023, Thiago tomou conhecimento do programa norte-americano destinado à substituição de equipamentos que recorrem a fontes radioactivas e apresentou uma proposta que acabou seleccionada. A iniciativa permitiu a doação do irradiador RS-420 XL, recebido em Julho de 2024. A nova máquina dispensa materiais radioactivos e produz electronicamente raios X capazes de provocar alterações em insectos, sementes, plantas e alimentos. O Jornal da USP refere ainda que as restrições à comercialização e ao transporte destes equipamentos aumentaram depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001, devido aos receios relacionados com o eventual roubo de materiais radioactivos.
A própria trajectória científica de Thiago está ligada a esta transição tecnológica. Durante o mestrado, concluído em 2009 no CENA sob orientação de Júlio, desenvolveu protocolos para esterilizar moscas-da-fruta através de raios X, realizando a componente prática na Áustria com Carlos Edmundo Cáceres Barrios, coordenador do Laboratório de Controlo de Pragas de Insectos, uma parceria entre a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura e a Agência Internacional de Energia Atómica. Há ainda uma ligação entre gerações: Cáceres também foi orientado por Júlio no CENA, tanto no mestrado, concluído em 1990, como no doutoramento, terminado em 1999.


