Um fosso cada vez mais evidente separa os números oficiais da experiência diária dos angolanos. As contas fazem-se antes de chegar à caixa do supermercado. Os preços sobem. Os jovens procuram emprego e muitos trabalhadores sentem que o ordenado mal chega ao fim do mês. Já as estatísticas desenham outro retrato: a economia cresce, o desemprego recua, avança a diversificação e a generalidade dos indicadores aponta para cima. Essa dissonância entre o que se vive e o que se divulga, assinala o Expansão, levanta dúvidas difíceis de ignorar.
Números demasiado optimistas podem transformar-se numa armadilha para o próprio Executivo. Quando a população recebe cada dado com suspeita, a utilidade política desses valores esvai-se. Um Produto Interno Bruto que ninguém aceita, uma inflação em queda que poucos reconhecem, melhorias sociais que não condizem com o quotidiano — tudo isso alimenta mais desconfiança do que adesão. E é precisamente aqui que entra o Instituto Nacional de Estatística. O país precisa de um INE robusto, tecnicamente independente e respeitado por universidades, empresas, investidores, governo e cidadãos. Sem estatísticas fiáveis, governa-se às escuras.
Mudar metodologias não é crime; é necessidade. O problema nasce quando essas alterações produzem, quase por milagre, resultados que servem a narrativa oficial, sem explicação que convença os cépticos. A caricatura torna-se tentadora. Se o trânsito piora, muda-se a forma de contar os congestionamentos. Se os hospitais transbordam, redefine-se o tempo de espera. Se o salário se esgota a meio do mês, revê-se o conceito de mês. Injusta para os técnicos competentes do INE, a ironia serve ainda assim um propósito: é por respeito ao trabalho deles que a instituição deveria abrir metodologias, amostras, bases de cálculo, revisões e limitações ao escrutínio académico.
A credibilidade não se decreta; constrói-se com tempo. E os números não são lidos apenas dentro de portas. Bancos multilaterais, agências de notação de risco e empresas internacionais também os examinam, à procura não só de boas notícias, mas sobretudo de dados em que possam confiar. Exigir um INE respeitável, defende o Expansão, não é atacar o governo — é proteger o país. Angola não precisa de estatísticas alegres nem sombrias. Precisa de números exactos, capazes de resistir ao olhar de académicos, jornalistas e cidadãos de calculadora na mão. A melhor estatística é aquela que dispensa defesa. Sobretudo a do próprio governo.


