A ideia de que a modernidade continua a ser um projecto por concluir ganhou novo fôlego numa reflexão publicada pelo Jornal da USP, que devolve ao debate as promessas de emancipação e de justiça herdadas dos últimos séculos. O ponto de partida é inesperado. Uma carta escrita por Francesco Petrarca em 1336, a descrever a subida ao Monte Ventoux, surge como um dos primeiros registos da contemplação da natureza enquanto experiência pessoal — o gesto que, para o historiador Burckhardt, faz do Renascimento a raiz de uma nova consciência individual, em ruptura com o olhar colectivo da Baixa Idade Média.
A subida ao monte funciona como metáfora. O indivíduo procura a autoconsciência e, nos séculos seguintes, convence-se de que também o mundo exterior pode ser dominado pela razão. As Revoluções Científicas do século XVII deslocaram esse olhar da contemplação para a investigação, levando a humanidade a intervir sobre a natureza para melhorar as condições de vida. O progresso deixou de ser mera hipótese. Passou a aspiração histórica, com cada geração a transmitir à seguinte um legado de conhecimento e de liberdade.
O entusiasmo não resistiu intacto ao século XX. As guerras, as crises sociais e a degradação ambiental abalaram a crença na inevitabilidade do progresso, e a ciência já não parecia garantir uma melhoria contínua da condição humana. Karl Löwith argumentou que a modernidade não rompeu de todo com a visão teológica da história, tendo apenas secularizado essa herança sob um novo dogma da razão. Oswald Spengler, em «O Declínio do Ocidente», recusou a existência de uma única flecha temporal e admitiu a hipótese da decadência. Hans Blumenberg respondeu em sentido inverso, ao defender a singularidade histórica da modernidade como resposta a problemas que a ordem medieval não sabia resolver, uma transformação que entrega à humanidade a responsabilidade pela própria história. Jürgen Habermas resumiu tudo numa fórmula: um projecto inacabado, ajustável através da autocrítica.
Neste retrato, a universidade ocupa o lugar mais avançado do projecto moderno. Cabe-lhe transformar a curiosidade em possibilidades futuras e impedir que o saber de uma geração feche as portas ao potencial das que se seguem. Não lhe compete prometer um mundo melhor. Compete-lhe manter o futuro aberto às inovações que ainda nem conseguimos imaginar. A tensão é conhecida — avançar no conhecimento sem atropelar os limites éticos da sua aplicação. E é aí, segundo o Jornal da USP, que a modernidade precisa de se rever a si mesma, para que a contemplação individual iniciada por Petrarca continue a alimentar um futuro amplo e inclusivo.


