Uma noite inteira de fado e de música luxemburguesa, com o público a caminhar de café em café, prepara-se para se transformar num encontro entre duas comunidades. É esse o mote do Rali do Fado, em Larochette, projecto da associação Lovers of the Universe. Em entrevista ao Letzebuerg Hoje, Daniel Terrão, mentor da iniciativa, explica como a ideia ganhou forma, os desafios do trabalho voluntário e a ambição de aproximar portugueses e luxemburgueses.
A ideia germinou longe do Grão-Ducado. Foi em Alfama, na Tasca do Chico, em 2020, que Daniel Terrão viveu a experiência que viria a moldar todo o projecto. Uma sala de fado de espírito intimista, com o silêncio erguido a regra. «Ninguém fala, ninguém sai, apagamos as luzes», recorda, descrevendo um serão que, com uma garrafa de vinho local, ganhava uma densidade difícil de esquecer. Dessa passagem trouxe a inspiração. Trouxe também, admite sem rodeios, a covid que dali importou para o Luxemburgo, em abril desse ano. Larochette impôs-se como palco natural por reunir a comunidade portuguesa mais forte da região e um número invulgar de espaços portugueses concentrados numa terra pequena. O modelo já existia no Blues and Jazz Rally, em que o participante circula de um local para o outro. Contactada, a comuna aderiu de imediato, por ver ali um conceito que assenta bem na filosofia da aldeia.

Para compreender a filosofia da associação convém recuar a 2007, ano em que fundou outra estrutura, ligada a um festival muito particular. Chegada a pandemia, com portas fechadas e agendas suspensas, surgiu o Phoenix da Renascença, concebido para reacender a cultura quando nada se mexia. Quatro princípios sustentam este trabalho, e Daniel Terrão faz questão de os enunciar: a originalidade e a inovação, com propostas criativas afastadas do circuito comercial; a inclusão financeira, para que a falta de meios nunca afaste ninguém; o espírito ecológico, com a máxima sustentabilidade possível; e o carácter pedagógico, através de oficinas e de iniciativas dirigidas aos mais novos. «São estas quatro características que pusemos dentro do projecto», resume.
O percurso tem sido de aprendizagem, e a maior dificuldade esteve no processo. Na estreia, havia uma visão, mas custava partilhá-la com os cafés da terra. «Chega alguém que nem é da aldeia, com uma ideia», reconhece, descrevendo a desconfiança natural de quem olha para o recém-chegado e pergunta o que quer. A confiança acabou por chegar, e o segundo ano correu muito melhor. A primeira edição contou com cinco espaços, a segunda com seis, mas o encerramento de um deles fez o número regressar a cinco. Pelo meio houve muita experimentação em horários e lotações, num tempo em que quem quisesse ver o concerto das cinco horas já tinha de estar no local às quatro. A resposta passou pelos concertos paralelos, dois em simultâneo, para aliviar as filas à porta.
Esta edição traz ajustes de peso. Cada concerto passa de 30 para 45 minutos, ganhando fôlego, e cada espaço acolhe agora uma única actuação, quando tradicionalmente recebia duas. A excepção fica para a praça principal, com capacidade para 500 ou 600 pessoas, que vai concentrar seis concertos: dois de fado e quatro de música luxemburguesa, entregues a grupos muito icónicos do país. A redução no número de grupos de fado tem contrapartida clara. «Como diminuímos a quantidade, era importante aumentar a qualidade», explica, anunciando a vinda de mais fadistas de Portugal. Dos sete nomes previstos, quatro ou cinco chegam directamente do país. O cartaz tem como figura de destaque Ana Lange, artista internacional que regressa ao fado, e conta ainda com Juliana Duarte, Joana de Deus e Lúcia Araújo. Do Equador vem Maria Terrada, que interpreta fado em língua espanhola sem perder o espírito do género. Entre os residentes no Luxemburgo actuam Rui Simões e Paula Oliveira, sendo quase todos os restantes vindos de Portugal.

Há um objectivo que se sobrepõe aos números. A primeira edição repartiu-se por 60% de participantes portugueses e 40% de luxemburgueses; na segunda, o desequilíbrio acentuou-se, com cerca de 80% de público português. A meta agora é aproximar-se de um equilíbrio de 50% e 50%. «A ideia é juntar as duas comunidades, fazer um projecto conjunto para optimizar as relações intercomunitárias», sublinha. O afluxo também conta. Foram perto de 500 pessoas na estreia e cerca de 600 na segunda edição, e alcançar o milhar seria, nas suas palavras, «mesmo bom». A programação alarga-se este ano, com alguns clubes instalados junto ao palco a servir comida, uma nova exposição de Paulo Lobo e uma projecção prevista ao lado do recinto principal. A ideia de fazer grandes retratos ficou por concretizar, por falta de meios. O apoio institucional mantém-se modesto, com uma pequena contribuição do Ministério da Cultura.
Um incómodo de fundo atravessa a conversa: a ideia instalada de que a cultura deve ser gratuita. Muitas comunas investem dinheiro e pagam os artistas, o que cria a percepção de que ter eventos culturais é normal e não deve custar nada. «Não devia custar nada, mas a verdade é que custa muito», contrapõe, lembrando o peso que recai sobre organizadores, artistas e logística, tudo assente em trabalho voluntário feito ao lado da vida profissional. Daí que o futuro passe por parcerias. A associação procura patrocinadores que acreditem no projecto e cresçam com ele, num apoio mútuo em que quem chega primeiro garante um lugar de destaque à medida que o evento se expande. A ambição não é pequena: partir das actuais centenas rumo aos milhares. «Somos os primeiros a não ter ordenado», recorda, ao descrever a realidade de uma pequena organização não convencionada com o Estado, obrigada a fazer comércio para financiar os custos de produção.
No fim, o Rali do Fado é, nas palavras do seu mentor, «uma noite de celebração, de primavera», uma noite de riqueza construída à mão por uma dezena ou duas de voluntários, e qualquer contributo é bem recebido, seja a montar estruturas, seja a servir bebidas durante uma ou duas horas. O futuro fica em aberto, cheio de pontos de interrogação, dependente da energia e do tempo que sempre escasseiam. Daniel Terrão descreve-se como «uma pessoa que sonha», idealista e optimista, convicto de que é possível mudar as coisas e deixar marca. «Não é só o dinheiro que dirige as coisas», remata, recordando que foram as pessoas a construí-lo e que também o podem desconstruir.
Toda a informação está disponível em www.loversoftheuniverse.com e para acompanhar no Letzebuerg Hoje.


