Um plano de investimento massivo prepara-se para reconfigurar a produção agrícola em Moçambique. Cerca de dois mil milhões de dólares — perto de 1,4 mil milhões de euros — deverão ser canalizados para o sector nos próximos quatro anos, com prioridade para os pequenos produtores e para as cadeias de valor com maior potencial. É uma aposta pesada, num país onde a terra sustenta a maioria da população mas rende pouco à economia.
A promessa partiu do ministro moçambicano da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, à margem de uma visita à província de Gaza, no sul do país, onde acompanhou a recuperação após as cheias de janeiro e março. De acordo com o jornal O País, o governante classificou a iniciativa como «arrojada». Garantiu ainda que a medida servirá de apoio às actividades de mais de dois milhões de produtores, estando os fundos a ser mobilizados junto de parceiros nacionais e estrangeiros.
O destino do dinheiro já está traçado. Os regadios de Chókwè e do Baixo Limpopo, ambos em Gaza, foram apontados como «áreas prioritárias de intervenção». Aí, o Governo pretende actuar em várias frentes em simultâneo — da extensão agrária à investigação, do financiamento dos produtores ao recurso a sementes melhoradas, adubos, fertilizantes e fitofármacos, até à mecanização e à irrigação. O objectivo declarado é implantar uma agricultura cientificamente sustentada, e não apenas remendar o que as águas levaram.
A tecnologia entra na conversa por outra via. Em 14 de julho, empresários moçambicanos tinham já reclamado acesso a sistemas de informação e a formação dirigida aos pequenos produtores, condição que consideram essencial para acelerar a transformação digital no sector. Mohamed Zameer Adam, do pelouro de Transformação Digital na Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), defendeu, na 21.ª edição da Conferência Anual do Sector Privado, a introdução de serviços que melhorem a informação disponível aos agricultores — sobre tempestades ou pragas, por exemplo — e que sirvam também à sua educação.
Os números explicam a urgência. O presidente da Agência de Transformação Digital e Inovação, Adilson Gomes, citou dados do Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas para lembrar que 70% da população moçambicana vive da agricultura. E lamentou o reverso: o sector contribui com apenas 25% para a economia nacional, desequilíbrio que associou à fraca capacidade do Estado para identificar os cidadãos e as suas reais necessidades.


