O congelamento prático das relações políticas entre a Guiné-Bissau e Cabo Verde marca mais um agravamento da crise que separa os dois Estados lusófonos. A decisão foi tornada pública pelo Conselho Nacional de Transição (CNT), o órgão que governa Bissau desde o golpe militar do ano passado, e surge como resposta directa a um apelo da Praia pela libertação de um dos maiores nomes da oposição guineense.
Em comunicado, o CNT acusou o Governo cabo-verdiano de interferência nos assuntos internos do país. Para as autoridades de transição, a Praia não tem legitimidade para se pronunciar sobre processos políticos ou judiciais em curso em território guineense. Qualquer exigência de libertação de figuras políticas locais é lida, nesse enquadramento, como «ingerência na soberania nacional».
O estopim foi um gesto do executivo cabo-verdiano que apelara à libertação rápida de Domingos Simões Pereira e colocara-se à disposição para mediar um diálogo que conduzisse a uma saída pacífica para a crise guineense. A reacção de Bissau foi imediata.
De acordo com a Deutsche Welle, o CNT foi mais longe e acusou o Governo de Cabo Verde de alinhar a sua política externa com interesses portugueses e europeus, em detrimento de uma agenda africana. No mesmo documento, Fernando Vaz evocou o período entre 1973 e 1980, marcado por alegadas violações de direitos humanos, recordando que muitas famílias guineenses continuam à procura dos restos mortais de familiares desaparecidos nessa altura.
No centro do braço-de-ferro está a detenção de Domingos Simões Pereira. Presidente do histórico Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e presidente eleito da Assembleia Nacional Popular, encontra-se em prisão preventiva desde 10 de julho, numa esquadra de Bissau. É investigado pelo Tribunal Militar pela alegada participação numa tentativa de golpe de Estado em outubro de 2025.
O actual quadro político remonta ao final do ano passado. A 26 de novembro de 2025, os militares tomaram o poder na Guiné-Bissau e substituíram o parlamento por um Conselho Nacional de Transição, actualmente no comando do país.
A tensão não se esgota no plano bilateral. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) — organização de que a Guiné-Bissau se encontra suspensa — condenou a prisão preventiva de Simões Pereira e apelou à sua «libertação imediata e incondicional», bem como à «retoma urgente da ordem constitucional» como condição para o regresso da paz e da estabilidade.


