Trocar a combustão pela bateria nos pequenos trajectos do dia-a-dia deixou de ser conversa de futuro para uma parte crescente dos residentes do Grão-Ducado — e o Estado ajuda a pagar a conta. A adesão faz-se devagar. Mas é real. Quem o confirma é Fábio Tinoco, gerente das lojas MyWays e Crossroads, dedicadas a bicicletas, scooters e motociclos, muitos deles eléctricos, e que ao longo de quatro anos e meio tem acompanhado de perto essa mudança de hábitos.
As duas insígnias nasceram dentro de um grupo luxemburguês que reúne cerca de uma dezena de empresas, com actividade na construção, na serralharia e no imobiliário. A ideia surgiu em plena pandemia. Em novembro de 2020, um dos herdeiros à frente do grupo idealizou uma loja vocacionada para veículos eléctricos — motos, scooters e bicicletas —, que abriria portas em 2021 sob a marca MyWays, reunindo à partida uma marca de motos, uma de scooters e várias de bicicletas.
O caminho não foi linear. Durante três anos, a casa procurou alargar a gama para chegar a mais clientes, passando de modelos mais acessíveis a scooters e motas de vários segmentos, incluindo máquinas de cross. Duas dificuldades marcaram esse percurso, admite o responsável: o preconceito de parte do público face ao eléctrico e a fragilidade financeira de algumas marcas recentes, em que a loja apostou e que acabaram por falir.
A evolução do mercado é descrita como lenta, mas visível. Há cada vez mais gente consciente de que precisa de adaptar a forma como se desloca, nota Tinoco. Muitos já possuem um automóvel eléctrico e, com o carregador instalado em casa, avançam para uma mota eléctrica em vez de acrescentarem um segundo carro a gasolina. Outros querem apenas uma scooter para as deslocações curtas — «ir ao pão», como resume. Pesam vários factores: a questão ambiental, que considera incontornável; o custo, num contexto de combustíveis mais caros; e a comodidade de circular e estacionar numa cidade onde o lugar de estacionamento escasseia. Moda passageira? O gerente afasta a ideia, apontando a consciência ambiental das novas gerações e o próprio impulso regulador da União Europeia.
A esse cálculo junta-se o apoio público, que torna a decisão mais leve para a carteira. Ao abrigo do Klimabonus Mobilitéit, a compra de um motociclo, motociclo ligeiro, ciclomotor ou quadriciclo 100% eléctrico dá direito a um prémio equivalente a 50% do custo do veículo sem IVA, até ao limite de 1.000 euros. O regime, que abrange também automóveis, carrinhas e bicicletas de pedalagem assistida, foi prolongado até 30 de junho de 2030, passando a aplicar-se aos veículos cujo contrato de compra ou de locação seja celebrado entre 1 de julho de 2026 e essa data — uma previsibilidade que, sublinha o responsável, ajuda a convencer quem ainda hesita.
Na capital, o cliente-tipo é sobretudo quem precisa de uma solução para distâncias curtas — cinco a seis quilómetros por dia — e não de uma máquina de elevada potência. Para esse perfil, basta uma scooter.
A oferta reparte-se hoje pelas duas marcas. A MyWays mantém-se fiel à vocação urbana, com bicicletas, scooters e motos de 50 e 125 cc, além de modelos eléctricos mais potentes e de uma nova categoria de motos de cross eléctricas, mais leves — na ordem dos 60 a 90 quilos, contra os cerca de 120 de uma mota de cross convencional — e homologadas para circular na estrada. Está ainda prevista a criação de um clube de motocross dedicado a máquinas eléctricas. A Crossroads, por seu turno, assenta em marcas chinesas de combustão: a Benda, no segmento custom; a Kove, de forte herança de competição, fundada por um antigo apaixonado pelo Dakar e com motorizações de raiz próxima da KTM; e, desde janeiro, a Voge, que veio completar a gama com propostas desportivas, naked, uma linha de scooters de 125 e 350 e as grandes trail, entre as quais a 900 e uma 800 Rally.
A autonomia, o velho argumento contra o eléctrico, já não o assusta. Há máquinas de elevado desempenho — na casa dos 110 cavalos, capazes de acelerar dos 0 aos 100 km/h em cerca de dois segundos — e autonomias próximas dos 300 quilómetros, defende Fábio Tinoco, com carregamentos rápidos que rondam os 20 minutos, num país servido por uma rede pública de carregamento alargada, com os pontos Chargy e SuperChargy. Basta planear o trajecto. Clientes seus já rumaram à Áustria e ao sul de França de mota eléctrica. Para umas férias em Portugal, contudo, não hesita em desaconselhá-la.
Em matéria de eventos, o ano está calmo. Fica marcado o encerramento de época promovido pela ACL, a 13 de outubro, com um passeio seguido de convívio. Entretanto, a casa promete novas marcas nos próximos meses.


