A aposta de que ciência e agricultura teriam de caminhar lado a lado ganhou forma numa fazenda de Piracicaba muito antes de o agronegócio se tornar um dos motores da economia brasileira. Cento e vinte e cinco anos depois, a instituição nascida desse ideal — hoje a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo — mantém a rara capacidade de se reinventar sem perder a identidade.
A sua história começou décadas antes da inauguração oficial, a 3 de junho de 1901. Filho dos Barões de Limeira e formado nas escolas de agricultura de Grignon, em França, e de Zurique, na Suíça, Luiz Vicente de Souza Queiroz acreditava que o futuro do país passaria pelo conhecimento. Em 1889 transformou esse ideal num projecto concreto, ao adquirir a Fazenda São João da Montanha, em Piracicaba, onde pretendia erguer uma escola agrícola inspirada nos modelos europeus e norte-americanos.
O caminho, porém, esteve longe de ser simples. Houve mudanças de governo, falta de recursos, paralisações nas obras e disputas políticas. Luiz de Queiroz doou a fazenda ao Estado de São Paulo com uma única condição: que a escola abrisse portas no prazo de dez anos. Morreu a 11 de junho de 1898, aos 49 anos, sem ver concretizado o sonho que consumiu os seus últimos anos.
Três anos volvidos, numa manhã festiva de junho, Piracicaba amanheceu enfeitada com bambus e bandeirolas coloridas para celebrar a inauguração da então Escola Prática Luiz de Queiroz. Desde então, a instituição formou milhares de profissionais, ajudou a adaptar a agricultura às condições tropicais, alargou as fronteiras da investigação científica e passou a ocupar lugar central nos debates sobre produção de alimentos, desenvolvimento e sustentabilidade.
Fundada em 1901 e integrada na USP em 1934, como uma das suas unidades fundadoras, a escola ajudou a construir tanto a história da agricultura brasileira como a de uma das principais universidades da América Latina. Em 2026 chega aos 125 anos com sete cursos de licenciatura, dezassete programas de pós-graduação, estudantes de 53 países e mais de sessenta convénios internacionais.
«Chegar aos 125 anos significa celebrar uma instituição que ajudou a construir a agricultura brasileira e ampliou a sua actuação para responder aos desafios de cada época», afirma a directora da Esalq, Thais Maria Ferreira de Souza Vieira. O aniversário será assinalado pelo Jornal da USP numa série especial de seis reportagens, que ao longo dos próximos dias percorrerá a trajectória da instituição, a ciência que transformou a agricultura brasileira e os desafios que se avizinham.


