A ópera larga a caixa negra e instala-se no espaço público, transformando cada espectador num viajante. Nada de palco frontal nem de veludo vermelho. Em vez disso, um percurso ao ar livre onde a plateia caminha de quadro em quadro — a praça, a taberna, a arena — enquanto a música a acompanha e os corpos passam rente. Já não se observa a história. Vive-se por dentro dela.
É esta a aposta de «Carmen», releitura itinerante da obra-prima de Georges Bizet apresentada nos dias 24 e 25 de julho no Parvis do centro cultural neimënster, na Abadia de Neumünster, em Luxemburgo. A companhia francesa Maurice et les autres pega no clássico e devolve-o vivo, imersivo e profundamente contemporâneo. O espectáculo dura cerca de 105 minutos e destina-se a todos os públicos.
Chamam-lhe «ópera-paisagem». Guiado de um lugar a outro, o público atravessa os cenários da narrativa como quem percorre quadros vivos, num dispositivo que cruza teatro, música e performance. A encenação é assinada por Jeanne Desoubeaux, com direcção musical de Jérémie Arcache e Igor Bouin, e é levada a cena por um colectivo de actores, cantores e músicos que transforma cada deslocação em dramaturgia.
Mas «Carmen» é muito mais do que uma ópera célebre. É uma história de liberdade, de desejo e de violência — e de uma actualidade perturbadora. «Ela deixa-o, ele mata-a»: por trás da paixão esconde-se um drama que ecoa os debates do nosso tempo. A leitura é assumidamente feminista, e a crítica francesa saudou-a nesses termos; publicações como o Télérama e o Le Canard enchaîné sublinharam o carácter imersivo e a energia festiva de uma versão que, dizem, nunca deixou a personagem tão livre.
Quem quiser experimentar precisa de contar com uma agenda apertada. A sessão de sexta-feira, 24 de julho, esgotou; restavam lugares para o sábado, 25 de julho. As portas abrem às 19h30 e o espectáculo começa às 20h00. Segundo o neimënster, o bilhete de tarifa plena custa 22 euros, a tarifa reduzida fica em 9 euros e o acesso através do Kulturpass em 1,5 euros.


