O primeiro-secretário do Comité Provincial da Frelimo na Zambézia, Francisco Nangura, apelou à população do distrito de Gurué para se distanciar de actos de vandalização de bens públicos e privados, numa referência explícita à violência que marcou o período pós-eleitoral de 2024. O apelo, proferido na noite de quarta-feira durante um encontro com membros e simpatizantes na vila municipal, carrega o peso de memórias ainda frescas: destruição de infra-estruturas, tumultos e mortes.
Nangura não foi ambíguo. Considerou os episódios de violência do pós-eleitoral uma «página lamentável da história do País», algo que «deve envergonhar todos os moçambicanos e não pode voltar a repetir-se». A linguagem é rara para um dirigente partidário em exercício — não se limitou a condenar o vandalismo, exigiu responsabilização judicial dos autores dos actos de destruição e das mortes ocorridas naquele período.
A visita de Nangura a Gurué insere-se numa ronda de trabalho pela província da Zambézia. Ao longo do dia, percorreu várias localidades antes de reunir com as estruturas do partido na vila municipal. Nos próximos dias, o itinerário prossegue por Mulevala, Milange e Mocuba, onde deverá manter encontros similares com comunidades e militantes.
A escolha de Gurué como palco deste apelo não é casual. O distrito, conhecido pelo cultivo de chá e pela produção agrícola, ficou relativamente à margem dos confrontos mais violentos de 2024, mas a Frelimo parece determinar a enraizar a mensagem de pacificação em territórios que, embora calmos, não estão imunes à tensão política latente. A estratégia é preventiva: antecipar o risco antes que ele se materialize.
A referência às mortes do pós-eleitoral é particularmente significativa. Enquanto grande parte da comunicação oficial se concentra na destruição material — estradas, edifícios, postos de saúde —, Nangura trouxe para o centro do discurso a perda de vidas humanas, algo que os relatos oficiais tendem a minimizar ou omitir. Esta mudança de registo pode reflectir uma pressão interna no partido para reconhecer a gravidade dos acontecimentos de 2024, ou simplesmente uma táctica de enquadramento moral para desarmar a oposição.
A província da Zambézia, no centro-norte de Moçambique, tem sido historicamente um reduto da Frelimo, mas nem sempre um território pacífico. Os distritos que Nangura visitará — Mulevala, Milange, Mocuba — partilham com Gurué uma característica comum: são áreas rurais onde o Estado está presente de forma ténue, e onde as redes partidárias funcionam como principal interface entre a população e o poder central. Neste contexto, o apelo à ordem é também um exercício de afirmação de liderança local.
A questão que fica no ar é se o discurso de Nangura traduzirá em medidas concretas. A responsabilização dos autores dos actos de 2024 permanece, para grande parte da opinião pública, uma promessa não cumprida. Poucos processos judiciais avançaram, e a impunidade continua a alimentar o ciclo de desconfiança. Quando um dirigente da Frelimo exige justiça perante uma plateia de simpatizantes, o gesto político é claro, mas a credibilidade depende dos resultados.
Para a comunidade lusófona em Luxemburgo, muita dela com origem moçambicana, estes apelos partidários ecoam com uma familiaridade desconfortável. A distância geográfica não apaga a proxiedade emocional com os acontecimentos do país de origem. A estabilidade de Moçambique — ou a sua ausência — repercute-se nas conversas de família, nas remessas, nas decisões de retorno ou de permanência no estrangeiro.
A visita de Nangura prossegue. A mensagem, por enquanto, é de advertência e de chamamento à unidade. O que acontecerá em Mulevala, Milange e Mocuba — e se a população responderá ao apelo — depende de factores que vão além do discurso de um secretário provincial.


