Uma agenda comercial ambiciosa da União Europeia com países terceiros vai continuar a ser defendida ao longo dos próximos seis meses, mesmo no que respeita ao acordo com o Mercosul — texto que Dublin rejeitou em votação, mas cuja aplicação se compromete agora a acompanhar de forma construtiva.
Esta foi uma das linhas fixadas no arranque da presidência irlandesa do Conselho da União Europeia, apresentada esta quarta-feira, 1 de julho, no Luxemburgo, num contexto geopolítico descrito como volátil.
Em resposta a uma questão colocada pelo Letzebuerg Hoje sobre se a presidência iria pressionar pela concretização do acordo, tendo em conta a resistência dos agricultores irlandeses, a embaixadora da Irlanda, Jean McDonald, recordou que a Irlanda sempre apoiou uma política comercial ambiciosa, considerada essencial para a prosperidade da União. A responsável não escondeu que existiu oposição interna ao acordo com o Mercosul e que o Governo irlandês votou contra o texto, apesar das melhorias introduzidas nas revisões. Reconhecendo o estado actual do processo, assegurou que Dublin trabalhará de forma construtiva, valorizando as cláusulas de salvaguarda entretanto acrescentadas para responder às preocupações das comunidades agrícolas, num pacote que classificou como equilibrado e do interesse da Irlanda.
A partir de 1 de julho, e até ao final do ano, cabe à Irlanda presidir ao Conselho da UE, função rotativa que cada um dos 27 Estados-membros assume durante seis meses. É a oitava vez que Dublin exerce estas responsabilidades, que implicam a condução das reuniões do Conselho a nível técnico, de embaixadores e ministerial, bem como o papel de facilitador imparcial na procura de compromissos. A apresentação das prioridades decorreu no Foyer européen, em evento organizado em conjunto com a representação da Comissão Europeia. Três eixos estruturam o programa — competitividade, segurança e valores europeus —, apresentados como dimensões interligadas.

O mandato irlandês assenta no trabalho deixado pela presidência cipriota, que conduziu o primeiro semestre de 2026. Nesse período, foi aberto o primeiro capítulo das negociações de adesão da Ucrânia e registaram-se progressos nos processos relativos à Moldova, ao Montenegro e à Albânia. No plano orçamental, Nicósia colocou sobre a mesa a chamada «caixa de negociação», com os valores que servirão de base às discussões sobre o quadro financeiro plurianual. O apoio à Ucrânia traduziu-se num pacote de assistência financeira de 90 mil milhões de euros e na adopção do 20.º pacote de sanções contra a Rússia, a par do avanço do programa SAFE, destinado à aquisição conjunta de equipamento militar. Foram ainda concretizados a aplicação do Pacto em matéria de Asilo e Migração — cujo regulamento sobre regressos gerou tensões no Parlamento Europeu — e um acordo sobre os direitos dos passageiros aéreos, negociado ao longo de 13 anos.
O orçamento plurianual surge como a tarefa central dos próximos meses. A embaixadora reconheceu que o diabo está nos detalhes e evitou antecipar o desfecho das discussões políticas, sublinhando existir, ainda assim, uma janela de oportunidade e um momento propício ao entendimento entre os Estados-membros. No alargamento, a Irlanda manifestou vontade de apoiar o Montenegro na conclusão das negociações ainda este ano e comprometeu-se a acompanhar os trabalhos relativos ao tratado de adesão. A Ucrânia foi apontada como prioridade permanente, com disponibilidade para apoiar novos pacotes de sanções e reforçar o apoio financeiro, ainda que Dublin mantenha uma posição nacional distinta em matéria de defesa. Foi também destacada a agenda de simplificação e os pacotes «omnibus», com a ressalva de que «a simplificação não é desregulação», mas sim a melhoria do ambiente regulatório em benefício das empresas.
No plano local, a presidência irlandesa prevê uma programação cultural e de proximidade no Luxemburgo, que inclui um concerto de celebração da cultura irlandesa contemporânea, agendado para a próxima semana no Théâtre des Capucins, além de acções de sensibilização junto das escolas e de versões do programa adaptadas ao público mais jovem. Destaque ainda para a iniciativa de geminação que associa cada um dos 26 condados irlandeses a um Estado-membro: ao Luxemburgo foi atribuído o condado de Carlow, ligado ao território luxemburguês por uma histórica relação com São Vilibrordo e a cidade de Echternach. Sob o lema «não há força sem unidade», o Governo irlandês pretende conjugar a agenda legislativa com a divulgação dos benefícios da integração europeia junto dos cidadãos.


