As tradições alimentares afirmam-se como uma lente surpreendente para decifrar a história e a cultura de Macau, num exercício em que cada sabor funciona como pista para compreender séculos de trocas, conflitos e convivência. É essa a proposta de Macau’s Historical Flavors: 20 Hidden Stories Seen By The Crumbs Left Behind That Everyone Should Know About (2025), obra que, conforme noticiou a Macao News, não é propriamente um livro sobre comida, mas sobre tudo aquilo que a comida revela. Os autores, Pui Man Hoi e Christopher Chu, apresentam os pratos e os aromas como «migalhas» que, apesar de pequenas, despertam a curiosidade e levantam perguntas incómodas sobre o passado. Sob uma perspectiva antropológica, recordam, o alimento está profundamente ligado às noções de identidade e de comunidade, e pode mesmo ser usado como instrumento político no campo das relações de poder, ocupando, a par da água e do abrigo, o nível mais elementar da pirâmide das necessidades de Maslow.
A obra desenha uma história que se estende pelos oceanos e que se inscreve numa complexa teia de trocas, da chamada troca colombiana ao galeão de Manila, responsáveis pela introdução de produtos que transformaram radicalmente os modos de vida da região, como a batata-doce, os pimentos e os amendoins. Esta narrativa é pontuada por sedas e especiarias, fortificações e bolachas, missionários, mestiçagens e marmelada. As suas raízes recuam às campanhas marítimas do explorador chinês Zheng He que, dois séculos antes dos europeus, já comerciava especiarias e chocolate — produtos «valorizados pelas suas propriedades medicinais» — e iguarias exóticas como ninhos de pássaro. Quando, a partir de 1430, essas expedições foram travadas, abriram-se as vias marítimas asiáticas às embarcações europeias, como a de Vasco da Gama, que alcançou a Índia em 1498. Em 1692, o Édito de Tolerância na China permitiu aos cristãos praticar a sua fé ao lado do culto ancestral chinês, medida que desagradou aos católicos e levou muitos religiosos a refugiar-se em Macau, contribuindo para a instabilidade da cidade.
A par destes grandes momentos, o livro condensa habilmente as realidades quotidianas de um lugar hoje promovido como paradigma do encontro entre Oriente e Ocidente. Em Macau, as mulheres chinesas não eram autorizadas a casar com homens portugueses, ou não demonstravam interesse em fazê-lo, vivendo as duas comunidades separadas por uma verdadeira barreira física. A existência do orfanato da Santa Casa de Misericórdia comprova que tais ligações aconteciam, mas a desigualdade era tão enraizada que os jovens saídos dessas instituições tinham oportunidades limitadas. Tornou-se assim corrente que os homens portugueses se unissem a mulheres de outras colónias, como Goa e Malaca, ainda que destas uniões nascessem preconceitos raciais entre as «famílias que se viam como descendentes lusitanos» e as comunidades portuguesas. O alimento, porém, exerce um poder mais subtil: foram as mulheres das cozinhas que se tornaram «as primeiras guardiãs da cozinha macanesa», tradição que, à semelhança do kristang em Malaca, revelava afinidade com a culinária europeia e preferia os talheres aos pauzinhos.
Mesmo assim, o conhecimento em torno dos ingredientes para fins medicinais não conseguiu «ultrapassar barreiras culturais», cabendo ao filósofo político Sun Yat-sen começar a preencher essas lacunas. Médico qualificado em Hong Kong, abriu em 1893 uma farmácia que unia Oriente e Ocidente e, em 1912, usou a sua habilidade política para reunir os líderes chineses e europeus de Macau com a mesma destreza com que manuseara remédios tradicionais e modernos na farmácia Chong Sai. O êxito dessas negociações ajudou a granjear apoio à Feira de Comércio de 1926, que juntou figuras portuguesas e chinesas de relevo, entre as quais o director de obras portuárias e governador interino Hugo de Lacerda e o abastado comerciante Lou Lim Ieoc, que dá nome ao que é talvez o mais belo jardim chinês da Macau contemporânea. Nesse certame, conservas de peixe e azeite portugueses foram promovidos ao lado de petardos e têxteis fabricados em Macau, num sucesso comercial que, ainda assim, nada fez para esbater a persistente disparidade de riqueza face à próspera vizinha Hong Kong, espinho que continua cravado no flanco do território. A obra encerra, de forma apropriada, com uma evocação do darwinismo e da necessidade de constante adaptação aos desafios externos para sobreviver — «uma história que Macau conhece muito bem», concluem os autores. Nesta cidade, o poder, a identidade e a sobrevivência foram sempre servidos no prato.


