A obra derradeira de um dos cineastas mais marcantes do cinema português contemporâneo regressa ao grande ecrã no Luxemburgo, numa homenagem que reúne os dois últimos filmes concluídos por João Canijo. Falecido em janeiro, aos 68 anos, o realizador deixou em «Mal Viver» e «Viver Mal» um díptico que continua a interpelar o público pela forma intensa como observa a condição humana, e é precisamente essa herança que sobe agora ao ecrã na capital luxemburguesa.
Concebidos como obras complementares, «Mal Viver» e «Viver Mal» partilham o mesmo cenário — um hotel familiar à beira-mar — e propõem diferentes perspectivas sobre uma mesma realidade. Nesse espaço fechado e quase claustrofóbico, ampliam-se as tensões entre gerações e os acertos de contas morais, enquanto a câmara se concentra na complexidade da experiência feminina, feita de cuidado, ressentimento, solidariedade e herança. Em 2023, «Mal Viver» valeu a Canijo o Urso de Prata no Festival de Berlim, distinção que confirmou a projecção internacional do seu trabalho.
As sessões resultam de uma colaboração entre o Centro Cultural Português Camões no Luxemburgo e a Cinémathèque de la Ville de Luxembourg, e decorrem no Théâtre des Capucins. «Mal Viver» é exibido a 15 de junho, às 18h30, seguindo-se «Viver Mal» a 17 de junho, às 20h15. Ambos os filmes são apresentados em versão original portuguesa, com legendas em inglês, num programa que assinala a vitalidade do cinema português junto da comunidade lusófona e do público luxemburguês.
Natural do Porto, João Canijo construiu ao longo de mais de três décadas uma filmografia profundamente enraizada na sociedade portuguesa, atenta aos conflitos familiares e ao universo das suas personagens femininas. A sua morte, em finais de janeiro, foi sentida como uma perda incontornável para o cinema nacional, e a homenagem agora promovida no Luxemburgo inscreve-se nesse reconhecimento, permitindo que o público volte a encontrar, em sala, a marca singular de um autor que nunca se afastou da verdade das suas histórias.


