A contaminação por minas antipessoal e por engenhos explosivos atingiu níveis sem precedentes no território ucraniano, transformando quase um quarto do país numa zona potencialmente perigosa para a população civil. Segundo dados oficiais divulgados pelo Governo ucraniano, cerca de 132.076 quilómetros quadrados permanecem afectados, o que coloca a Ucrânia no topo da lista mundial dos países mais contaminados por este tipo de armamento. O problema, agravado de forma drástica desde fevereiro de 2022 com a invasão em larga escala lançada pela Federação Russa, bloqueia o acesso a habitações, escolas, estabelecimentos de saúde e terras agrícolas, com consequências graves para a segurança alimentar e para a recuperação económica das zonas afectadas.
As minas antipessoal são engenhos explosivos concebidos para serem activados pela presença, proximidade ou contacto de uma pessoa, com o objectivo directo de ferir ou matar, e representam uma ameaça duradoura mesmo décadas após o fim dos conflitos. O Tratado de Proibição de Minas, adoptado em Otava em 1997, proíbe a utilização, o armazenamento, a produção e a transferência destes engenhos, mas a sua aplicação no terreno tem sido sistematicamente posta em causa pelas hostilidades em curso. Praticamente todas as zonas recentemente tornadas acessíveis na Ucrânia contêm uma diversidade significativa de explosivos, que vão desde minas antipessoal modernas a modelos da era soviética, passando por engenhos improvisados de fabrico artesanal.
A descontaminação dos territórios poderá levar décadas, uma vez que as substâncias explosivas presentes nestas munições não se degradam com o tempo. De acordo com a organização Handicap International, que mantém operações no terreno, a densidade da contaminação observada na Ucrânia é muito superior à habitualmente registada noutros contextos, com minas antipessoal colocadas em grande número e, mais recentemente, sinais de que estão a ser lançadas a partir de drones. Gary Toombs, responsável pelas operações técnicas de libertação de terras nesta organização, sublinhou a complexidade da combinação entre munições antigas, sistemas modernos e tecnologias inéditas em contextos de desminagem humanitária. Refira-se que incidentes envolvendo munições da Segunda Guerra Mundial continuam a ser registados em todo o território ucraniano, o que demonstra a persistência destas ameaças ao longo do tempo e a dimensão estrutural do desafio.
À escala global, até 90 por cento das vítimas de minas e de restos explosivos de guerra são civis, com particular incidência sobre crianças que se cruzam com estes engenhos no caminho para a escola, em parques infantis, em zonas florestais ou mesmo no interior das suas próprias habitações. Os sobreviventes apresentam frequentemente ferimentos que resultam em incapacidades permanentes, limitando a sua participação na vida laboral e comunitária, num momento em que o sistema ucraniano de cuidados médicos de urgência se encontra fortemente debilitado pelo conflito, com milhares de estabelecimentos de saúde danificados ou destruídos e com a evacuação rápida comprometida pelos cortes de electricidade e pelos ataques às infra-estruturas sanitárias. Estima-se que 3,5 milhões de pessoas vivam a menos de 50 quilómetros da linha da frente, das quais cerca de 3,1 milhões necessitarão de ajuda humanitária em 2026, com uma parte significativa dessas necessidades directamente relacionada com os riscos colocados pelas minas e pelas munições por explodir, que continuam a restringir o acesso à habitação, aos serviços essenciais e aos meios de subsistência.


