A democratização do acesso à arte por parte de pessoas com deficiência visual ganhou expressão concreta com o desenvolvimento de esculturas tácteis que conjugam estética modernista e uma vivência sensorial pensada para ser explorada pelo toque. O projecto “Sentir para Conhecer”, desenvolvido na Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP), converteu peças escultóricas tradicionais do acervo universitário em réplicas tácteis, permitindo ao público invisual apreender plenamente as formas e a intenção artística das obras. A iniciativa, segundo o Jornal da USP, é coordenada pelo professor Paulo Eduardo Capel Cardoso em conjunto com docentes de várias faculdades, e culminou numa exposição apresentada na Reitoria e na própria Faculdade de Odontologia.
No centro deste trabalho está o percurso do artista plástico Rogério Ratão, cuja trajectória se iniciou em São Paulo em 1972 e foi profundamente marcada por uma vivência singular. Desde a infância conviveu com baixa visão em resultado de uma uveíte, tendo perdido por completo a visão aos 18 anos devido a um descolamento de retina. A adversidade impulsionou-o a explorar a criação artística através de uma abordagem assente no tacto e na estética sensorial, ampliando o próprio conceito de fruição da arte. A sua formação em escultura desenvolveu-se sob a orientação do artista chileno Martim, com quem estudou entre 1992 e 1996, e domina hoje a modelagem em argila, a fundição em bronze e uma técnica particular de cerâmica de alta temperatura.
O estilo artístico revela uma forte influência do Modernismo do início do século XX, com referências a nomes como Victor Brecheret e Constantin Brancusi, e procura a simplificação e a geometrização da forma, tornando as obras intrigantes tanto ao olhar como ao toque. “Eu quero que ela seja muito agradável ao olhar e instigante. Mas, ao mesmo tempo, ela tem que ser muito agradável ao toque”, afirmou o artista ao Jornal da USP. Um traço distintivo do seu trabalho é o recurso ao torno, que lhe permite criar formas cilíndricas e ovais posteriormente moldadas e recortadas à mão. Entre as criações mais significativas destacam-se a série “Sinus”, que explora curvas evocativas do corpo humano, as peças “Geo-Tipia”, obtidas por prensagem de discos de argila sobre espuma, e as “Abstrações Cerâmicas”, caracterizadas por perfurações geométricas que dialogam com a luz e a sombra.
A ligação de longa data à USP estende-se também à actividade pedagógica, com Rogério Ratão a ter leccionado no Museu de Arte Moderna de São Paulo entre 2011 e 2024, período em que implementou o projecto “Igual Diferente”, vocacionado para a inclusão de pessoas com e sem deficiência em cursos de arte. Está actualmente em preparação uma escultura permanente que será instalada num jardim da Faculdade de Arquitectura e Urbanismo. Para o artista, a presença destas obras em contexto académico configura uma afirmação política sobre as capacidades criativas das pessoas com deficiência. “As pessoas cegas também produzem arte, podem fazer e pensar arte”, sublinha, defendendo que o acesso à arte abre novas possibilidades de criação e de fruição estética.


