Há lugares que se descobrem por acaso e ficam para sempre numa lista de viagens adiadas. Wuppertal, no coração da Renânia do Norte-Vestefália, é uma dessas cidades. O que a torna inesquecível é uma engenhoca centenária suspensa a doze metros sobre as águas do rio Wupper: a Schwebebahn, o mais antigo monocarril suspenso do mundo, inaugurado a 1 de Março de 1901. Concebida pelo engenheiro Eugen Langen — originalmente com vista a ser instalada em Berlim —, esta maravilha da engenharia percorre 13,3 quilómetros e vinte estações a uma velocidade máxima de 60 km/h, transportando ainda hoje cerca de 80 mil passageiros por dia. Não é uma atracção turística decorativa: é o principal meio de transporte público da cidade e, simultaneamente, a sua mais inconfundível imagem de marca.

Confesso que o meu primeiro contacto com Wuppertal foi feito de longe, ainda nos anos 80. Um casal de alemães comprou casa na minha terra natal e, entre conversas, fotografias e cartões-postais, falaram-me de um comboio que voava sobre um rio numa cidade lá do seu país. A imagem ficou-me. Durante décadas, sempre que ouvi falar de Wuppertal, pensei naquele monocarril improvável, suspenso entre as encostas industriais, e prometi a mim mesmo que um dia havia de o experimentar pessoalmente. Essa promessa, adiada vezes sem conta, parece agora ao alcance da mão.
Do Luxemburgo, a viagem é quase ridícula de tão curta: cerca de 260 quilómetros por estrada, pouco menos de três horas de carro, atravessando paisagens que mudam discretamente dos vinhedos do Mosela para as colinas industriais do Bergisches Land. Uma escapadela de fim-de-semana, portanto, sem complicações. Na chegada, o Spark by Hilton Wuppertal City Centre, instalado em pleno Döppersberg — colado à estação central e à paragem da Schwebebahn —, é a base ideal para quem quer ter o comboio voador literalmente à janela do quarto. O hotel disponibiliza ainda um bilhete gratuito de transportes da rede VRR, que cobre toda a Renânia-Ruhr e permite saltar para a carruagem suspensa logo depois do pequeno-almoço.

A primeira viagem na Schwebebahn é um ritual obrigatório. Sentados na carruagem, com o vidro a separar-nos do vazio, vemos a cidade desfilar de outro ângulo: o rio lá em baixo, as fachadas industriais convertidas em galerias, os bairros de villas Art Nouveau e as encostas verdes que sobem para o Bergisches Land. Mas Wuppertal é muito mais do que o seu comboio voador. É a cidade natal de Friedrich Engels, cuja casa-museu se visita em Barmen. É a casa do Tanztheater Pina Bausch, companhia que, sob a direcção da coreógrafa desaparecida em 2009, revolucionou a dança contemporânea mundial e ainda hoje se apresenta no Opernhaus. É também o palco do Zoo de Wuppertal — um dos mais antigos do país, com mais de quatro mil animais num parque de vinte e quatro hectares — e do Von der Heydt-Museum, cuja colecção atravessa séculos de pintura europeia.
Visitar Wuppertal é, no fundo, uma lição sobre como uma cidade pode transformar um problema em identidade. A Schwebebahn nasceu da incapacidade de construir transportes convencionais num vale estreito e propenso a cheias e tornou-se, mais de um século depois, uma das mais singulares peças de património industrial vivo da Europa. Para quem parte do Luxemburgo, é a desculpa perfeita para um fim-de-semana fora do circuito habitual, longe das capitais turísticas demasiado fotografadas. E para quem, como eu, guarda há décadas a memória de dois vizinhos alemães que falaram pela primeira vez de um comboio que parecia desafiar a gravidade, é também o cumprimento tardio de uma promessa de juventude.


