Flores amarelas, cortejos floridos e uma procissão dançante única na Europa animam o segundo dia do Pentecostes no Grão-Ducado
Há cheiro a primavera no ar, faixas amarelas de flores a vestir os campos do norte, sinos a tocar nas torres das basílicas e uma simpática preguiça festiva a instalar-se de uma ponta à outra do país: o segundo dia do Pentecostes regressou ao Luxemburgo e, com ele, voltou um dos feriados mais luminosos e curiosos do calendário nacional. Bancos, escolas, repartições públicas e a maioria das lojas encerram portas, deixando o palco livre para missas matinais, piqueniques em família, longas caminhadas pelos bosques e, sobretudo, para algumas das tradições mais antigas e excêntricas da Europa, todas elas vivamente celebradas neste pequeno Grão-Ducado.
Pode parecer apenas mais uma data no calendário, mas a história escondida por trás deste feriado é digna de um pequeno tratado de curiosidades. Comemora-se a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos, episódio em que, segundo o Novo Testamento, os discípulos passaram subitamente a entender e a falar várias línguas — uma simbologia que assenta como uma luva num país onde diariamente se conversa em luxemburguês, francês, alemão, português e mais umas quantas línguas pelo meio. A designação Whit Monday vem, curiosamente, do inglês White Sunday, em alusão às túnicas brancas que os catecúmenos envergavam para receberem o baptismo nesta época. Na Idade Média, era costume os senhores feudais concederem uma semana inteira de descanso aos servos por esta altura do ano, hábito que se prolongou em muitas regiões europeias até à Revolução Industrial. E houve até quem o exportasse: nos Estados Unidos do século XIX, as comunidades de origem germânica da Pensilvânia — os famosos Pennsylvania Dutch — celebravam-no com tal pompa que a data ganhou na região o irresistível apelido de «Quatro de Julho dos pensilvanos».
A presença viva desta herança nota-se de imediato nas igrejas e capelas do país, onde é costume decorar paredes, altares e portadas com ramos de verdura e flores frescas, símbolos do renascer da natureza e do sopro do Espírito Santo. Em alguns bairros, vizinhos juntam-se em encontros multilíngues, em que cada um partilha uma frase, uma canção ou uma receita na sua língua materna — uma divertida homenagem moderna à mensagem original do dia. Pelo país fora, os parques enchem-se de mantas, grelhadores e cestos de piquenique, enquanto do outro lado da fronteira, em algumas localidades alemãs vizinhas, perdura a tradição encantadora de adornar um boi com flores e conduzi-lo em pequeno cortejo, o chamado Pfingstochse, ou «boi do Pentecostes». Mais do que um simples dia de descanso, o feriado funciona como o primeiro grande ensaio público do verão, atraindo turistas de toda a Europa — tantos, aliás, que este fim-de-semana figura, juntamente com a Páscoa e o Natal, entre os três períodos mais movimentados do calendário turístico continental.
A maior e mais colorida festividade popular do dia tem lugar em Wiltz, simpática vila do Éislek conhecida como «a capital dos Ardennes luxemburgueses», onde decorre o Geenzefest, ou Festa da Giesta. Idealizado em 1948 pelo fotógrafo Tony Mander e por um grupo de amigos apaixonados pela paisagem local, o evento dura todo o fim-de-semana de Pentecostes, com a giesta — o arbusto de flor amarela que cobre as colinas do norte do país no mês de maio — como protagonista absoluta. De acordo com o portal oficial do Governo do Luxemburgo, mais de dez mil pessoas acorrem todos os anos à vila para assistir ao ponto alto da festa: o cortejo florido da segunda-feira, em que mais de quarenta carros alegóricos, completamente cobertos de flores amarelas, percorrem as ruas ao som de bandas filarmónicas, grupos folclóricos, batalhões de majorettes e formações artísticas vindas dos países vizinhos. No sábado anterior, num momento aguardado com particular entusiasmo pelos habitantes, é eleita e coroada a Rainha da Giesta, que, acompanhada pelas suas seis damas de honor, desfila depois sobre um carro recoberto de incontáveis pétalas doiradas. As casas da vila vestem-se a rigor, decoradas com ramos do mesmo arbusto, e o castelo de Wiltz transforma-se num pequeno centro de animação, com mercado de artesanato, concertos ao ar livre e bailes tradicionais.
Se a Festa da Giesta é o lado mais alegre e popular do dia, a celebração mais singular acontece já amanhã, a Whit Tuesday, quando a histórica cidade abacial de Echternach — a mais antiga do Luxemburgo, fundada no século VII — se enche de peregrinos para a Sprangprëssessioun, a célebre procissão dançante. Reconhecida pela UNESCO em 2010 como Património Cultural Imaterial da Humanidade, é hoje a última procissão deste género em toda a Europa e atrai cerca de treze mil participantes vindos do Luxemburgo, Alemanha, França, Bélgica e até dos Países Baixos. Destes, oito a nove mil avançam aos saltos — sim, literalmente aos saltos —, dispostos em filas de cinco pessoas unidas por lenços brancos, ao som hipnótico de uma melodia de polca repetida durante quase três horas, ao longo de um percurso de dois quilómetros que termina junto ao túmulo de São Willibrord, o monge anglo-saxão que fundou a abadia de Echternach em 698 e a quem se atribuíam dons curativos. A tradição está documentada pelo menos desde o ano 1100 e terá nascido, ao que tudo indica, no contexto das misteriosas epidemias medievais de convulsões — provavelmente provocadas por intoxicação alimentar — que assolavam as populações dos vales do Reno e do Mosela. Vários peregrinos, sobretudo os que partem das localidades alemãs de Waxweiler e Prüm, fazem ainda hoje toda a viagem a pé desde o domingo, chegando à cidade na noite seguinte para participar na primeira missa, celebrada às 5h15 da manhã.
A procissão sobreviveu, de resto, a séculos de adversidades. Em 1778, o arcebispo de Trier proibiu a sua versão dançante na vizinha Prüm, por considerá-la pouco condizente com o decoro religioso da época, mas em Echternach a tradição apenas conheceu um interregno temporário. Em 1825, o rei-grão-duque Guilherme I decretou ainda a transferência do evento para domingo, decisão que teve de revogar cinco anos depois, face à resistência da população. Hoje, com os participantes trajados de camisa branca e calças escuras, acompanhados por bispos, abades, autoridades civis, bandas filarmónicas e milhares de espectadores, a procissão de Echternach é não apenas uma das mais emblemáticas atracções religiosas do calendário luxemburguês como também um dos retratos mais expressivos da identidade cultural deste pequeno país. Uma identidade que, neste segundo dia de Pentecostes, se exprime simultaneamente em forma de oração, de cortejo, de flor amarela, de boi enfeitado, de mesa partilhada à sombra das árvores — e, claro, de muitos, muitos saltos.


