Previsões da Comissão Europeia apontam expansão impulsionada pelas exportações de serviços financeiros, mas alertam para a persistência da inflação e o agravamento do défice orçamental
A aceleração do crescimento da economia luxemburguesa em 2026 e 2027 está projectada apesar do agravamento do contexto internacional e do aumento dos custos energéticos provocados pelo conflito no Médio Oriente. As exportações de serviços financeiros surgem como o principal motor desta expansão, ainda que o abrandamento do consumo privado e do investimento, em resultado da quebra de confiança e da subida das taxas de juro, deva limitar o desempenho global. As previsões económicas da primavera, divulgadas pela Comissão Europeia, antecipam um crescimento do produto interno bruto do Grão-Ducado de 1,6% este ano e de 2,0% em 2027, depois de uma expansão modesta de 0,6% registada em 2025.
Sector financeiro lidera a retoma, mas volatilidade persiste
A trajectória do PIB beneficiará sobretudo do sector financeiro e segurador, sustentado pelo aumento das emissões líquidas de fundos obrigacionistas na sequência dos cortes nas taxas de juro, com o sector público a contribuir igualmente de forma relevante para a actividade económica. A deterioração do clima geopolítico no início de 2026 provocou, contudo, uma queda acentuada nos mercados bolsistas mundiais, com uma recuperação relativamente rápida mas ainda marcada por forte volatilidade. A confiança dos consumidores caiu 9,2 pontos em março, a segunda maior descida registada na União Europeia, seguida de uma ligeira recuperação em abril. A aquisição de um satélite no terceiro trimestre de 2025 teve, por outro lado, um efeito de arrastamento negativo sobre o investimento, que deverá contribuir negativamente para o PIB em 2026, salvo se forem registadas novas aquisições de relevo.
Emprego cresce abaixo da média histórica e desemprego mantém-se estável
No mercado de trabalho, o crescimento do emprego deverá situar-se em 1,3% em 2026, um valor consideravelmente inferior à média histórica do Luxemburgo, antes de acelerar para 1,5% em 2027. O ritmo mais lento do que o habitual no crescimento do número de trabalhadores transfronteiriços deverá conter a subida da taxa de desemprego, que se manterá estável nos 6,6% em 2026 e recuará ligeiramente para 6,5% em 2027, à medida que o emprego retomar fôlego. O consumo privado, motor central da procura interna nos últimos trimestres, deverá perder algum dinamismo e crescer 1,6% este ano, recuperando para 2,1% em 2027 com a redução da incerteza ligada ao conflito no Médio Oriente e a normalização das taxas de juro de curto prazo.
Inflação persiste em 2026 pressionada pela energia
A inflação global deverá fixar-se nos 2,7% em 2026, contra 2,5% em 2025, pressionada pela subida dos preços da energia na sequência do conflito no Médio Oriente. Os aumentos salariais decorrentes da indexação automática, previstos para maio, deverão alimentar a subida dos preços dos serviços ao longo do ano. Para 2027, a Comissão Europeia projecta uma desaceleração para 1,8%, suportada pela quebra esperada dos preços energéticos e pela atenuação da inflação alimentar. A persistência das pressões inflacionistas no curto prazo representa, no entanto, um risco relevante para o poder de compra das famílias residentes no Grão-Ducado, num momento em que o sector da construção dá sinais lentos de recuperação e o investimento em habitação apresenta uma melhoria moderada.
Défice público agrava-se e dívida sobe para 30,2% do PIB
As contas públicas luxemburguesas registaram em 2025 uma deterioração significativa, passando de um excedente de 0,9% do PIB em 2024 para um défice de 2,0%, com as receitas totais a recuarem 0,6 pontos percentuais do PIB, para 47,1%, e a despesa pública a aumentar 2,3 pontos, para 49,1% do PIB. Este desequilíbrio reflecte sobretudo o impacto das medidas destinadas a proteger o poder de compra dos agregados familiares, a competitividade das empresas e o sector da construção, com destaque para o reajustamento dos escalões do imposto sobre o rendimento das pessoas singulares, a redução da taxa nominal do imposto sobre as sociedades de 17% para 16% e o prolongamento dos apoios à construção, a par de um aumento da massa salarial pública e da aquisição de um satélite militar. Para 2026, o défice deverá reduzir-se para 1,2% do PIB, beneficiando do aumento da taxa contributiva da segurança social de 24% para 25,5% e da subida dos impostos indirectos, embora volte a agravar-se para 1,5% em 2027, à medida que o crescimento da despesa supera novamente o das receitas. O rácio da dívida pública deverá subir de 26,5% em 2025 para 29,2% em 2026 e 30,2% no ano seguinte.
Contexto europeu marcado por revisões em baixa e riscos geopolíticos
No conjunto da União Europeia, as previsões apontam para um crescimento do PIB de apenas 1,1% em 2026, uma revisão em baixa de 0,3 pontos percentuais face às projecções do outono de 2025, com uma ligeira recuperação para 1,4% em 2027, enquanto na zona euro o crescimento deverá fixar-se em 0,9% este ano e 1,2% no próximo. A inflação europeia foi igualmente revista em alta, para 3,1% em 2026 e 2,4% em 2027, com a UE a ser particularmente vulnerável enquanto importador líquido de energia. A Comissão Europeia identifica como principais riscos a duração do conflito no Médio Oriente e as suas implicações para os mercados energéticos globais, a possibilidade de escassez de matérias-primas específicas como produtos refinados de petróleo, hélio e fertilizantes, o arrefecimento da procura de mão-de-obra e a incerteza em torno das políticas comerciais. A aceleração das reformas estruturais e o investimento público em sectores como a defesa e a transição energética surgem, em contrapartida, como factores capazes de mitigar parte da fragilidade prevista para o sector privado.


