A persistência do material genético do Hantavírus Andes no organismo humano, detectada até cerca de seis anos depois da infecção inicial, está a obrigar a comunidade científica internacional a repensar protocolos de vigilância clínica e medidas de prevenção sanitária associadas a esta família de agentes virais. Uma nova investigação demonstrou que vestígios do vírus podem permanecer no sémen de pacientes recuperados durante períodos significativamente mais longos do que se acreditava, abrindo caminho para uma eventual via de transmissão sexual que, embora ainda não confirmada em casos clínicos reais, levanta sérias preocupações entre especialistas em saúde pública.
O estudo, conduzido por investigadores do laboratório estatal suíço de Spiez, centrou-se num homem de 55 anos que contraiu o agente viral durante uma viagem à América do Sul. Enquanto as análises ao sangue, à urina e às vias respiratórias do paciente não revelaram qualquer presença do vírus, o material genético foi efectivamente detectado no sémen até 71 meses após o episódio infeccioso. A descoberta surpreendeu os autores do trabalho e suscitou um debate alargado entre virologistas, sobretudo no que respeita aos mecanismos que permitem ao agente patogénico esconder-se nos testículos, à semelhança do que já foi observado em outros vírus particularmente perigosos, como o Ébola ou o Zika.
O virologista canadiano David Safronetz advertiu, contudo, que a mera presença de ácido ribonucleico viral não implica necessariamente que o paciente continue a ser contagioso, podendo tratar-se apenas de restos genéticos detectáveis em glóbulos brancos muito tempo após a recuperação clínica. A Organização Mundial da Saúde encontra-se actualmente a aprofundar o estudo do comportamento do vírus no interior do organismo humano e a avaliar a sua infecciosidade ao longo do tempo. Os autores da investigação defendem, entretanto, a adopção de medidas preventivas inspiradas nas directrizes aplicadas aos sobreviventes do Ébola, nomeadamente a realização de testes regulares ao sémen até que não sejam encontrados vestígios do vírus, a utilização sistemática de preservativo e uma eventual abstinência sexual durante o período pós-infecção.
Predominante na América do Sul, o Hantavírus Andes distingue-se de outras estirpes do mesmo grupo por já ter levantado suspeitas de transmissão entre seres humanos, ao contrário do padrão habitual de contágio, que ocorre quase sempre pelo contacto com fezes, urina ou saliva de roedores infectados. Os sintomas iniciais assemelham-se aos de uma gripe comum — febre, dores de cabeça, cansaço e náuseas —, podendo evoluir para quadros clínicos graves, com complicações respiratórias e problemas renais. As novas descobertas reforçam a necessidade de uma vigilância prolongada dos doentes recuperados e indiciam que diversas viroses poderão permanecer activas no organismo por períodos consideravelmente mais longos do que se admitia até agora.


