O tráfico de droga à luz do dia, com vendedores a oferecerem cocaína, heroína e haxixe a quem passa de câmara na mão, voltou a expor as fragilidades do bairro da Gare, no coração da cidade do Luxemburgo. As imagens, montadas em cerca de oito minutos e já com mais de 30.000 visualizações, correram as redes sociais e obrigaram as autoridades a responder.
O autor é um criador de conteúdos belga que percorre cidades europeias à procura dos chamados «piores bairros». Num artigo publicado esta semana o jornal L’essentiel, descrebe o vídeo a mostrar propostas de venda de estupefacientes praticamente diante da polícia, pessoas sem-abrigo, edifícios degradados e o testemunho de um homem esfaqueado. Nada disto é inédito para quem conhece a zona. Novo é o alcance: um público internacional, atraído pelo contraste entre o Luxemburgo dos altos salários e aquilo que a câmara filmou à porta da estação.
A reacção institucional não se fez esperar — e não negou o essencial. Em declarações ao L’essentiel, a burgomestre da capital, Lydie Polfer, lamentou «uma forma redutora de apresentar a situação complexa do bairro da Gare e que não dá conta dos esforços das instituições públicas, em matéria de polícia, saúde, justiça e política da cidade». A Polícia Grã-Ducal seguiu a mesma linha, sustentando que «estas poucas cenas, apresentadas de forma isolada e fora de contexto, dificilmente permitem traçar um retrato realista da vida quotidiana no Luxemburgo, ou mais precisamente na cidade do Luxemburgo». A corporação recordou ainda que, entre janeiro e meados de julho de 2026, deteve 148 alegados traficantes, a maioria na capital, depois das 216 detenções registadas em todo o ano de 2025.
Nenhuma das partes contestou os factos filmados. Contestaram o enquadramento — e é aí que a história ganha outra espessura.
Em entrevista exclusiva ao Letzebuerg Hoje, Jamie Sanders, nascido na Flandres, explicou o que o move. Percorre cidades europeias a filmar aquilo que os guias turísticos calam. «Gosto de mostrar a realidade às pessoas, o que se passa nos bastidores», afirmou. Não esconde a outra metade da equação. «Gosto de fazer estes vídeos, mas também gosto de ganhar alguma atenção, algumas visualizações», admitiu. Faz disto, para já, uma ocupação a tempo parcial, com a ambição de a transformar em profissão.
A escolha do Luxemburgo nasceu de uma lista de cidades problemáticas e da convicção de que ninguém tinha ainda apontado a câmara ao lado menos fotogénico do Grão-Ducado. «Se procurarmos o Luxemburgo, aparece tudo o que é bom», observou. «Achei que ninguém tinha feito isto antes.» Para encontrar o cenário, andou duas a três horas pela cidade, passou por Bonnevoie e falou com um consumidor, até perceber onde estava o essencial. «Foi então que percebi que tinha de ficar na zona da Gare. É ali o ponto principal.»
O que o surpreendeu foi o descaramento. Noutras cidades, diz, cruza-se sobretudo com consumidores caídos no chão; ali, foram os vendedores a tomar a iniciativa. «Toda a gente se aproximou de mim a dizer que me queria vender droga. Nunca tinha assistido a isto noutras cidades», descreveu. A câmara estava à vista, e mesmo assim ninguém recuou. «São muito simpáticos para a câmara.» Habitualmente, contrapõe, quem vende mantém-se discreto, longe da linha da frente. No bairro da Gare, não.
Sanders admite, sem rodeios, que o retrato é concentrado. «É talvez o bairro menos mau onde estive», reconheceu, acrescentando que «fora dali, o Luxemburgo é um país bastante seguro». Insiste que não provoca. Filma em espaço público, evita apontar a pessoas em concreto e garante que, quando é atacado — o que já sucedeu noutras reportagens —, nunca deu motivo. «Estamos na Europa Ocidental. Posso circular com uma câmara apontada a mim», resumiu, lembrando que quem está na rua faz parte desse mesmo espaço público.
Sente-se, ainda assim, injustamente visado. Na sua óptica, culpa-se o mensageiro. «Acham pior eu filmar do que as pessoas que me querem vender droga», lamentou.
Trabalha sozinho. Filma, edita e faz as miniaturas sem qualquer equipa, embora pondere passar a levar alguém para «ter um olho extra» nas zonas mais expostas — «não por medo», ressalva, «mas porque nunca se sabe». O próximo destino já está marcado: Hamburgo. O bairro da Gare, esse, continua a dividir quem o vive e quem o governa.


