A libertação de vários militares detidos há mais de um ano está a marcar uma possível viragem política na Guiné-Bissau, num momento em que crescem os apelos à reconciliação nacional e ao regresso à ordem constitucional. Entre os libertados encontra-se o general Daba Na Walna, antigo presidente do Supremo Tribunal Militar, que já regressou à sua residência. Segundo a Deutsche Welle (DW), a Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH) saudou, na terça-feira, a libertação dos militares, mas exigiu que as autoridades estendam a medida aos restantes presos políticos. O país continua suspenso das actividades da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) desde Dezembro de 2025, na sequência de um golpe militar, mantendo-se a suspensão até à efectiva reposição da ordem constitucional.
A decisão é interpretada pelo jurista guineense Augusto Tibna Na Insambé como uma «viragem abismal» relativamente ao regime do antigo Presidente Umaro Sissoco Embaló. Em declarações à DW, o jurista considera que estas libertações dificilmente teriam ocorrido sem uma mudança significativa na orientação política das autoridades. Recorda ainda que, em Julho, o Supremo Tribunal de Justiça determinou o encerramento do processo relacionado com uma alegada tentativa de golpe de Estado, por considerar que o caso estava prescrito. A declaração de nulidade do processo colocou em causa os actos processuais do Tribunal Militar Superior e abriu caminho à libertação dos detidos, uma decisão que, segundo Tibna Na Insambé, não tinha sido cumprida durante a governação de Sissoco Embaló.
A aproximação entre as forças armadas e a população poderá estar na origem desta mudança de atitude. Na interpretação de Augusto Tibna Na Insambé, o Alto Comando Militar parece ter reconhecido, após o referendo, a necessidade de corrigir o rumo político e promover uma nova fase de diálogo com os partidos e a sociedade guineense. A reconciliação nacional surge, assim, como uma das prioridades num país marcado por sucessivas crises institucionais. A libertação dos militares constitui um sinal de abertura, embora permaneçam dúvidas quanto à capacidade das autoridades para transformar estes gestos em medidas concretas de estabilização democrática.
As tensões políticas, contudo, estão longe de desaparecer. O primeiro-ministro Ilídio Vieira pediu uma investigação às mortes de várias figuras, incluindo a do activista Vigário Luís Balanta, cujas circunstâncias continuam a suscitar exigências de esclarecimento. Esta iniciativa poderá revelar um afastamento político em relação a Umaro Sissoco Embaló, numa altura em que parte da população reclama justiça e responsabilização. Para a Guiné-Bissau, o desafio ultrapassa a libertação dos presos políticos. A recuperação da confiança nas instituições, o esclarecimento das mortes ainda por investigar e o restabelecimento da ordem constitucional serão determinantes para ultrapassar a instabilidade e permitir o regresso pleno do país à CPLP.



