Criar um negócio de raiz num país estrangeiro raramente é um caminho linear, e é justamente nessa travessia — da ideia ainda vaga à empresa já consolidada — que uma associação luxemburguesa concentra hoje o seu trabalho junto da comunidade de língua portuguesa. Chama-se Quintal dos Empreendedores, ou QDE Lux, e acompanha actualmente cerca de 35 pessoas. O apoio começa antes de a empresa sequer existir. «Ajudamos desde a sua base até à sua implementação e depois também à sua expansão», explicou a presidente, Etelvina Correia, em declarações ao Letzebuerg Hoje. Business plan, burocracia, crescimento: um acompanhamento que atravessa toda a vida de um projecto. Mas há uma camada menos visível. Sem integração social, argumenta a associação, dificilmente há integração profissional — e por isso o trabalho arranca sempre pelo indivíduo, pela sua adaptação ao país, antes de chegar ao negócio.
A pergunta surge naturalmente a quem já conhece a House of Entrepreneurship ou a House of Training: para quê mais uma estrutura? A resposta está no terreno. As grandes instituições fazem o seu trabalho de forma organizada e sustentável, reconhece a associação, mas demoram mais tempo porque não estão dentro da comunidade. O QDE Lux está. «Somos a ponte que eles precisam para chegar de forma mais directa à comunidade», resumiu Etelvina Correia, definindo o papel de intermediário entre o empreendedor que não sabe por onde começar e os organismos oficiais que o podem formar.
Portugal e Brasil dominam os pedidos, e a explicação é tanto cultural como geográfica. Portugal continua a ser a porta de entrada da lusofonia na Europa, pela língua, pelos acessos e por um clima que suaviza a transição — muitos africanos da CPLP passam primeiro por lá antes de rumar ao Luxemburgo. Do Brasil chega agora algo novo: uma vaga de imigração directa, alimentada por descendentes de luxemburgueses que aceleraram a documentação perante a mudança anunciada nas regras de nacionalidade. Para todos estes casos, a associação promove aquilo a que chama «imigração organizada» — um plano traçado ainda antes da partida, incluindo as regiões fronteiriças da Bélgica e da França, para que a chegada não seja um salto no escuro.
Ao longo do ano, o calendário enche-se de iniciativas com nome próprio. O Nexo Mulher trabalha a liderança feminina, numa comunidade onde, segundo a associação, muitas mulheres são decisivas mas carecem de solidariedade entre pares. O Start Integrate ocupa-se da integração, de pessoas e de empresas, e o Beauty Business reúne profissionais do sector da beleza. A estes juntam-se encontros presenciais recorrentes, parcerias com outras associações e visitas a quem simplesmente quer viver melhor no país. Está marcado para 26 de Setembro mais um desses encontros, desta vez para auscultar a comunidade sobre as alterações legislativas em curso, da lei do trabalho à lei dos estabelecimentos.
Nada disto se faz sem custos, e a associação não os esconde. No arranque, a direcção meteu dinheiro do próprio bolso; depois tornou-se incomportável, até que um particular cedeu uma morada para permitir o registo e a continuidade do trabalho. Espaço fixo, não há — dependem de empresários já estáveis que emprestam algumas horas das suas instalações e de outras associações mais consolidadas. A receptividade do mercado, admite Etelvina Correia, tem sido difícil, num meio que circula muito por contactos específicos e pouco de forma horizontal. Do lado do Estado, a leitura é mais favorável, mas o pedido é claro: mais condições para quem, na prática, faz a base do apoio à comunidade.
Há ainda uma lacuna que a presidente considera importante. Com duas embaixadas apenas — a de Portugal e a de Cabo Verde — e alguns consulados pouco alicerçados, a estrutura diplomática não chega para uma comunidade que, nos últimos três anos, cresceu enormemente. Informação e solidariedade são, para o QDE Lux, as duas peças que faltam encaixar melhor, sobretudo porque demasiadas famílias caem em situações delicadas por falta de informação correcta e por ouvirem terceiros em vez de recorrerem às instituições competentes. A mensagem final foi um convite directo. «Venham ter connosco», deixou Etelvina Correia, sublinhando que por trás de cada programa está uma equipa de voluntários e a convicção de que, mesmo com dificuldades, a vontade de continuar é maior do que os obstáculos.


