Da primeira palavra, “Nonada”, à última, “Travessia”, poucas obras da literatura mundial conseguem manter-se, com tal intensidade, ao longo do tempo, sem perder vigor, profundidade e emoção. Publicado há 70 anos, “Grande sertão: veredas” continua vivo e relevante – um romance que não apenas sobrevive, mas atravessa o tempo com a mesma força que conquistou os seus primeiros leitores.
Em 2026, a comemoração desta obra-prima adquire contornos ainda mais abrangentes. Não se trata apenas de reverenciar um livro essencial, mas de reconhecer um ciclo criativo extraordinário. O ano marca também os 70 anos de “Corpo de baile”, os 80 anos de “Sagarana” e os 90 anos de “Magma”, obra inovadora que, em 1936, já prenunciava o talento singular de seu autor ao conquistar um prémio da Academia Brasileira de Letras.
Falar de João Guimarães Rosa é falar da reinvenção da linguagem. O seu texto rompe as barreiras entre o erudito e o popular, entre o regional e o universal, criando uma literatura que é, ao mesmo tempo, profundamente brasileira e universal. Em “Grande sertão: veredas”, o sertão mineiro deixa de ser apenas um cenário para se transformar em personagem, um território simbólico onde questões humanas fundamentais – como o bem e o mal, o amor, a morte e a fé – se desenrolam com intensa filosofia e poesia.
No entanto, para compreender a grandeza da sua obra, é igualmente importante conhecer a sua trajetória. Nascido em Cordisburgo, no interior de Minas Gerais, Rosa mudou-se jovem para Belo Horizonte, onde se graduou em medicina. A profissão, contudo, foi apenas uma das muitas facetas da sua vida intelectual. Poliglota e curioso incansável, observador atento da condição humana, ingressou na carreira diplomática, que lhe permitiu viajar pelo mundo e ampliar o seu repertório cultural.
Essas vivências foram cruciais para a formação de sua escrita única. O contato com diferentes idiomas, culturas e paisagens alimentou a sua capacidade de experimentar com a linguagem, criando neologismos e estruturas narrativas inovadoras que ainda hoje desafiam e encantam os leitores.
Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963, Guimarães Rosa tomou posse apenas em 1967, três dias antes da sua morte, no Rio de Janeiro. Um desfecho simbólico para uma vida marcada por intensidade e entrega à palavra.
Décadas depois, a sua obra continua a ressoar de diversas formas. “Grande sertão: veredas” foi traduzido para várias línguas e adaptado para o cinema, teatro e televisão, além de ter inspirado documentários e composições musicais. Cada nova leitura e cada nova adaptação reafirma a vitalidade de um texto que nunca se esgota, conforme avança a comunicação social do Brasil.
Celebrar Guimarães Rosa em 2026 é, portanto, muito mais do que um gesto de memória. É um convite à redescoberta. Num mundo cada vez mais acelerado, a sua literatura exige pausa, escuta e entrega, oferecendo, assim, uma experiência transformadora.
Entre o “Nonada” inicial e a “Travessia” final, Rosa conduz-nos por um percurso que é, simultaneamente, íntimo e universal. Um caminho onde a linguagem e a existência se entrelaçam, revelando que, assim como o sertão, a literatura também habita dentro de nós – vasta, complexa e infinita.


