O último dia em Fuzhou começou diante de um panda-gigante. Do outro lado do vidro, no Fuzhou Panda World, estava sentado numa saliência rochosa, de patas estendidas. A visita inclui também uma exposição sobre a espécie. Numa das paredes, uma escala permite comparar o tamanho de um panda-gigante com o de um panda-vermelho. Ao lado, fotografias e painéis explicam como nascem e crescem as crias.
Os pandas dão também vida ao comércio à porta do parque. Nas lojas do exterior, encontrámos lembranças alusivas aos animais por menos de metade do preço pedido no interior. Foi uma das vantagens de conversar com as pessoas da terra. Neste caso, bastou falar com quem conhece a zona para saber onde procurar.

Depois de dois dias de reuniões e fóruns, o passeio que se seguiu, a bordo de um barco-dragão do circuito Fushui Fuchuan, foi dos momentos mais animados da jornada. E permitiu-nos ver da água uma cidade que, em terra, já julgávamos conhecer um pouco.
Os canais interiores de Fuzhou já serviram de vias de transporte. Pelo Baima, por exemplo, circulavam embarcações, e uma comporta ajudava a regular o nível das águas em épocas de cheia e de seca. A rede fazia também parte da vida das povoações ribeirinhas, que durante gerações organizaram corridas de barcos-dragão. O circuito Fushui Fuchuan trouxe a navegação de recreio a estas vias. Em Guangminggang, onde a água se alarga, a tradição continua a juntar moradores em treinos e competições.

Regressámos ao hotel para almoçar, com iguarias da região à mesa. Entre os clássicos de Fuzhou contam-se as bolas de peixe recheadas com carne de porco, os rou yan, pequenos pastéis de carne de porco, os bolinhos de ostras e o fotiaoqiang, um caldo cozinhado lentamente cujo nome se traduz por «Buda salta por cima do muro». Foi também ao almoço que finalmente provei uma excelente Tsingtao numa versão que nunca encontrei à venda fora da China.

À tarde, quando muitos dos colegas já tinham começado a deixar o hotel para regressar aos seus países, ainda houve tempo para subir a Yantai Hill. Na margem sul do rio Min, este bairro ganhou importância depois de Fuzhou ter sido designada, em 1842, um dos cinco portos chineses abertos ao comércio estrangeiro na sequência do Tratado de Nanquim. O primeiro consulado britânico instalou-se ali em 1845. No início do século XX, segundo o município, 17 países tinham consulados ou representações na zona. Desse período ficaram igrejas, casas comerciais e edifícios que ajudam a perceber como o comércio internacional mudou esta parte da cidade.

As placas do bairro dão nomes e datas a essa história. O Foochow Club, de iniciativa britânica, foi construído em 1854 com dinheiro de consulados e comerciantes. Ali se celebrou, em 1897, o jubileu de diamante da rainha Vitória. No número 2 da Rua Aiguo, um edifício de 1863 pertenceu ao comerciante britânico de chá John Forster e acolheu o consulado dos Estados Unidos entre 1891 e 1928. Hoje é o Museu de Yantai Hill. A antiga residência do comissário das Alfândegas Marítimas de Fujian, construída em 1877 e reconstruída em 1926, distingue-se pelas colunatas sem arcos e pelas varandas separadas.
O que mais me impressionou em Yantai Hill foi ver tanta gente a usar um bairro com esta história. Havia lojas abertas, cafés e turistas a percorrer as ruas. Uma antiga casa comercial pode hoje ser visitada como museu, enquanto os negócios da zona dão às pessoas outros motivos para subir à colina. Vê-se ali como a recuperação do património pode devolver um bairro à vida quotidiana da cidade e criar espaço para a actividade económica.

Faltava cumprir uma promessa da véspera. Voltámos para experimentar o pastel de nata de 60 centímetros que tínhamos descoberto no dia anterior. Dá para dez pessoas. Foi pena não o poder levar para o Luxemburgo. A outra descoberta coube na palma da mão, um pastel de nata de pistácio, de tamanho normal e uma maravilha.

Pelo caminho, chamou-nos a atenção uma carrinha Lexus de luxo com duas matrículas, uma de Hong Kong e outra da China continental. É uma imagem familiar para quem conhece Macau ou Hong Kong e está habituado a ver veículos autorizados a circular dos dois lados da fronteira. Esta Lexus tinha apenas quatro lugares. Com tanto espaço por passageiro, até os cerca de 900 quilómetros entre Hong Kong e Fuzhou pareciam uma viagem confortável.

Já de noite, ainda parámos para apreciar, pela última vez nesta viagem, a vista de Fuzhou iluminada. De manhã, tínhamos visto a cidade da água. À tarde, tínhamos subido à colina onde se instalaram os comerciantes e os cônsules. Na despedida, ficou a imagem de uma cidade onde ainda se pode percorrer de barco uma parte da sua história e, umas horas depois, entrar pela porta de outra.




