A cooperação económica entre a China e a Europa continua a abrir oportunidades de investimento, inovação tecnológica e desenvolvimento sustentável, com benefícios que também chegam ao Luxemburgo. A ligação entre o Industrial Bank da China e a Bolsa do Luxemburgo, identificada à margem do Fórum de Cooperação dos Media da Iniciativa Uma Faixa, Uma Rota 2026, é um exemplo concreto de como as relações entre os dois mercados podem traduzir-se em projectos financeiros e ambientais de dimensão internacional.

Realizado esta terça-feira, 3 de Novembro, em Fuzhou, na província chinesa de Fujian, o fórum reuniu responsáveis políticos, dirigentes empresariais e profissionais da comunicação social de vários países. A jornada colocou em destaque a cooperação económica, as infra-estruturas, a inovação e o papel dos meios de comunicação social na aproximação entre diferentes regiões do mundo.
A cerimónia de abertura decorreu no Centro Internacional de Conferências e Exposições do Estreito de Fuzhou, numa iniciativa organizada pelo jornal chinês People’s Daily. Entre os participantes estiveram representantes da liderança chinesa, responsáveis de órgãos de comunicação social internacionais e dirigentes de grandes empresas, que apresentaram diferentes perspectivas sobre o desenvolvimento das relações económicas e comerciais no âmbito da iniciativa Uma Faixa, Uma Rota.
Uma das intervenções com maior interesse para o Luxemburgo foi a de Lv Jiajin, presidente do conselho de administração do Industrial Bank da China. O dirigente apresentou três prioridades para aprofundar a cooperação financeira internacional: o investimento em infra-estruturas, o apoio à internacionalização das empresas tecnológicas e o financiamento de projectos ambientais.

No domínio das infra-estruturas, Lv Jiajin defendeu o reforço dos mecanismos financeiros destinados à construção de caminhos-de-ferro, estradas, portos, redes eléctricas e infra-estruturas digitais. Referiu, entre outros exemplos, o apoio do Industrial Bank a um projecto de expansão ferroviária na Tanzânia, destinado a melhorar as ligações de transporte e criar novas oportunidades económicas.
A inovação tecnológica ocupou igualmente um lugar central no discurso. O responsável destacou o financiamento de empresas ligadas aos veículos inteligentes, à biomedicina e ao comércio electrónico transfronteiriço, sectores nos quais a cooperação internacional pode facilitar a circulação de capitais, tecnologia e conhecimento.
A transição energética foi outro dos temas abordados. Lv Jiajin apresentou projectos no Cazaquistão e no Quirguistão, incluindo uma iniciativa de produção de electricidade através da valorização de resíduos em Bishkek. O objectivo, segundo o dirigente, passa por integrar a protecção ambiental nas estratégias de crescimento económico e reforçar o financiamento de investimentos sustentáveis.

Embora o Luxemburgo não tenha sido mencionado durante a intervenção, uma investigação realizada à margem do fórum permitiu identificar uma ligação financeira entre o Industrial Bank e o Grão-Ducado.
Em Novembro de 2018, precisamente em Fuzhou, o Industrial Bank e a Bolsa do Luxemburgo assinaram um memorando de entendimento destinado a reforçar a cooperação no mercado internacional de obrigações verdes. Estes instrumentos financeiros permitem mobilizar capitais para investimentos com benefícios ambientais, nomeadamente nos sectores das energias renováveis, dos transportes sustentáveis e da gestão dos recursos naturais.
Nesse mesmo ano, uma emissão de obrigações verdes do Industrial Bank, no valor de 300 milhões de euros, foi admitida à cotação na Bolsa do Luxemburgo. Os fundos destinavam-se a financiar projectos relacionados com transportes eléctricos, energias renováveis e gestão sustentável da água.
A cooperação não ficou por aí. A Bolsa do Luxemburgo anunciou posteriormente a admissão à sua plataforma Luxembourg Green Exchange de uma emissão de obrigações verdes do banco chinês no valor de 800 milhões de dólares, destinada a apoiar investimentos em energias renováveis, tecnologias de baixo carbono e transportes sustentáveis.
Estes exemplos mostram uma dimensão das relações entre a China e o Luxemburgo que nem sempre é visível no debate público. A praça financeira luxemburguesa disponibiliza plataformas internacionais para a mobilização de capitais, enquanto instituições financeiras chinesas procuram instrumentos e parceiros para financiar projectos de desenvolvimento sustentável.

Trata-se de uma relação com vantagens para ambas as partes. Para o Luxemburgo, a cooperação com instituições chinesas representa uma oportunidade de reforçar a sua posição enquanto centro financeiro internacional, particularmente no financiamento verde. Para a China, o acesso a plataformas financeiras europeias permite diversificar as possibilidades de financiamento e aproximar os seus projectos dos investidores internacionais.
O caso do Industrial Bank demonstra também que a iniciativa Uma Faixa, Uma Rota não se limita à construção de infra-estruturas na Ásia ou em África. As relações económicas desenvolvidas neste contexto podem envolver directamente instituições europeias, incluindo as do Grão-Ducado, e criar oportunidades em sectores estratégicos para o futuro das duas economias.
A indústria tecnológica chinesa esteve igualmente representada em Fuzhou através de Yu Meng, vice-presidente da vivo, fabricante de telemóveis que pretende reforçar a sua expansão internacional, incluindo no mercado europeu.
Durante a intervenção, o responsável abordou as ambições da empresa na Europa, num contexto em que as marcas tecnológicas chinesas procuram conquistar novos consumidores e alargar a sua presença fora do mercado doméstico.

A expansão de empresas como a vivo ilustra outra vertente da relação económica entre a China e a Europa. Para os consumidores europeus, a entrada de novos fabricantes pode significar maior diversidade de produtos, concorrência e acesso a novas tecnologias. Para as empresas chinesas, o mercado europeu representa uma oportunidade de crescimento e de desenvolvimento de relações comerciais duradouras.
A cooperação tecnológica não se resume, contudo, à comercialização de equipamentos. O intercâmbio de conhecimento, a investigação, a inovação industrial e o desenvolvimento de soluções digitais são áreas nas quais as relações entre empresas chinesas e europeias podem criar oportunidades de colaboração.
Durante a tarde, os trabalhos prosseguiram no Empark Exhibition Grand Hotel, com três sessões paralelas dedicadas à cooperação entre os meios de comunicação social e ao desenvolvimento das relações internacionais.
A quarta reunião do conselho da Belt and Road News Network reuniu representantes de órgãos de comunicação social de diferentes países. Outra sessão foi dedicada à cooperação regional, enquanto o programa incluiu a apresentação de trabalhos distinguidos nos Silk Road Global News Awards, prémios que reconhecem produções jornalísticas relacionadas com a Rota da Seda.
Para além das intervenções oficiais, o fórum proporcionou oportunidades de contacto directo entre jornalistas de diferentes continentes. Nos corredores, durante os intervalos e nos momentos de convívio, as conversas permitiram trocar experiências profissionais, conhecer outras realidades e estabelecer relações que poderão prolongar-se para além do encontro.

A presença de profissionais de língua portuguesa deu uma dimensão particularmente próxima a esta jornada internacional. Entre os jornalistas brasileiros com quem tivemos oportunidade de conversar estiveram Moacyr de Oliveira Filho e Marcos de Oliveira, além de outros participantes.
Os encontros incluíram ainda Zezito da Silva, de Timor-Leste, Mario Albino RM, de Moçambique, e Casimiro Jorge Cajucam, da RSM, da Guiné-Bissau.
A língua portuguesa revelou-se um ponto de encontro entre profissionais separados por milhares de quilómetros, mas ligados por referências culturais e linguísticas comuns. Estas conversas permitiram conhecer diferentes experiências do exercício do jornalismo e compreender melhor a forma como as relações com a China são acompanhadas em vários países lusófonos.
A presença destes profissionais mostrou também o papel que a comunicação social pode desempenhar na aproximação entre sociedades. Conhecer directamente outras realidades, ouvir diferentes perspectivas e estabelecer contactos profissionais contribui para uma informação mais diversificada e para um melhor conhecimento das relações internacionais.
A jornada terminou com uma dimensão cultural, através da apresentação de «O Sonho da Rota Marítima da Seda» (《丝海梦寻》), uma produção de dança dramática do Teatro de Ópera e Dança de Fujian, levada ao palco da Opera House do Fuzhou Strait Culture and Art Centre.

O espectáculo transportou o público até ao porto de Quanzhou, há cerca de oito séculos, numa época em que as rotas marítimas ligavam a China a diferentes regiões da Ásia através do comércio e das viagens oceânicas.
A narrativa acompanha A Hai, um capitão chinês que perde a vida durante uma tempestade ao salvar o príncipe Hamadi, oriundo da Ásia Ocidental. Anos mais tarde, o príncipe regressa à China para procurar a família do homem que lhe salvou a vida, reencontrando uma história marcada pelo sacrifício, pela separação e pela memória.
O filho do capitão acaba por dar continuidade à tradição marítima do pai, numa história que atravessa gerações e recupera a dimensão humana das antigas relações comerciais.
Através da dança, da música e da expressão teatral, a produção recordou que as rotas marítimas não serviam apenas para transportar mercadorias. Por esses caminhos circulavam também conhecimentos, tradições, ideias e pessoas, estabelecendo relações entre comunidades de diferentes culturas.
A escolha do espectáculo estabeleceu uma ligação simbólica com os temas discutidos ao longo do fórum. Tal como no passado, a aproximação entre países continua a depender da capacidade de estabelecer contactos, desenvolver relações de confiança e encontrar interesses comuns.
É precisamente nesta perspectiva que a deslocação à China assume particular relevância para uma publicação dirigida à comunidade portuguesa no Luxemburgo.

A China é uma das grandes economias mundiais e mantém relações comerciais, industriais e financeiras com a Europa. O conhecimento directo da realidade chinesa permite identificar oportunidades de cooperação que nem sempre recebem a mesma atenção que as divergências políticas e económicas entre os dois mercados.
Essas divergências existem e fazem parte das relações internacionais. Não impedem, porém, que empresas e instituições europeias e chinesas encontrem áreas de interesse comum, sobretudo em sectoreo as e o financiamento sustentável.
O Luxemburgo, pela sua dimensão internacional e pela importância do sector financeiro, tem condições para participar neste relacionamento. A cooperação entre a Bolsa do Luxemburgo e o Industrial Bank é uma demonstração concreta dessa possibilidade, com operações financeiras já realizadas e instrumentos destinados a apoiar investimentos ambientais.
A experiência de Fuzhou reforça a importância de olhar para a China não apenas como um concorrente económico da Europa, mas também como um parceiro com o qual podem ser desenvolvidos projectos de interesse mútuo. A concorrência e a cooperação não são necessariamente incompatíveis, desde que as relações sejam construídas com reciprocidade, transparência e respeito pelos interesses de cada parte.

Para o Luxemburgo, manter canais de diálogo com instituições financeiras e empresas chinesas pode contribuir para diversificar parcerias, atrair actividade económica e consolidar a sua posição internacional. Para a Europa, uma relação económica equilibrada com a China pode abrir oportunidades de investimento, inovação e acesso a mercados, sem excluir a necessidade de proteger os seus próprios interesses estratégicos.
Foi esta uma das principais perspectivas que a jornada em Fuzhou permitiu aprofundar. Para além dos discursos e das reuniões, ficaram exemplos concretos de cooperação financeira, contactos com dirigentes empresariais e relações estabelecidas com jornalistas de diferentes países.
A ligação entre o Industrial Bank e a Bolsa do Luxemburgo dá particular consistência a essa leitura. Não se trata apenas de intenções anunciadas numa conferência, mas de uma cooperação que já se traduziu em operações financeiras internacionais.
A deslocação à China permite, assim, acompanhar de perto uma realidade económica e social cuja influência se estende muito para além das fronteiras chinesas. Para os leitores do Luxemburgo, conhecer essa realidade é também compreender melhor as oportunidades que podem resultar de uma relação construtiva entre a China e a Europa.
O futuro destas relações dependerá da capacidade de transformar interesses comuns em projectos concretos. Em Fuzhou, entre o financiamento verde, a inovação tecnológica, os contactos internacionais e a evocação histórica da Rota Marítima da Seda, ficou uma mensagem central: a aproximação entre a China e a Europa pode criar benefícios para ambas as partes, e o Luxemburgo já dispõe de exemplos concretos dessa cooperação.



