A reforma da governação mundial, com maior participação dos países do Sul Global e um reforço do papel das Nações Unidas, esteve no centro das propostas apresentadas pela China durante o primeiro Fórum da Governação Mundial. A iniciativa pretende tornar o sistema internacional mais equilibrado, numa altura marcada por conflitos geopolíticos, tensões comerciais, alterações climáticas e pelo rápido desenvolvimento da inteligência artificial.
O encontro decorreu entre 23 e 25 de Outubro de 2026, em Xiong’an, cidade chinesa cuja construção começou em 2017, nas proximidades de Pequim. O fórum reuniu mais de 400 representantes de cerca de 90 países, incluindo responsáveis políticos, académicos, especialistas económicos e dirigentes de organizações internacionais. Mais de 70% dos participantes pertenciam a institutos de investigação.
A conferência assinalou duas datas importantes para Pequim: os 55 anos do restabelecimento dos direitos legítimos da China na Organização das Nações Unidas (ONU) e o primeiro aniversário da Iniciativa de Governação Mundial, lançada pelo país asiático. Esta proposta, que conta, segundo a publicação, com o apoio de mais de 160 países e da ONU, defende uma maior igualdade entre Estados e uma participação mais representativa das economias emergentes nas decisões internacionais.
No discurso de abertura, o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, defendeu que a ONU deve continuar a ser a plataforma indispensável da cooperação internacional. O responsável apelou ao fortalecimento do multilateralismo, à reforma do sistema financeiro internacional e a uma maior influência dos países do Sul Global nas instituições que determinam as regras da economia e da política mundiais.
A China pretende igualmente alargar a cooperação internacional a áreas que apresentam novos desafios de governação, como as profundezas dos oceanos, as regiões polares e o espaço cósmico. Wang Yi defendeu que estas matérias devem ser reguladas através de princípios de paz, soberania, inclusão e respeito pelos interesses dos diferentes Estados.
Entre as prioridades anunciadas por Pequim estão a preparação da cimeira da Cooperação Económica Ásia-Pacífico (APEC), prevista para Novembro, e o apoio à reforma das Nações Unidas, com estruturas mais simples e maior eficiência. O Governo chinês pretende ainda reforçar o Grupo de Amigos da Governação Mundial, que integra mais de 60 países, e promover a aplicação integral do acordo internacional BBNJ, destinado à conservação e utilização sustentável da biodiversidade marinha em áreas fora das jurisdições nacionais.
A agenda chinesa inclui também uma revisão das prioridades internacionais em matéria de direitos humanos, colocando o direito ao desenvolvimento no centro da cooperação multilateral. Estão igualmente previstas uma proposta para reforçar a governação do espaço cósmico, a publicação de um relatório sobre o desenvolvimento de capacidades em inteligência artificial e a criação de um Centro de Investigação para a Governação Mundial.
A participação das Nações Unidas deu particular destaque aos problemas sociais associados à instabilidade internacional. Guy Ryder, subsecretário-geral da ONU para as políticas, alertou para o aprofundamento das divisões políticas entre países, que está a atrasar o cumprimento dos objectivos internacionais de desenvolvimento.
A situação dos refugiados foi outro dos temas abordados. Barham Salih, Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, recordou que mais de 117 milhões de pessoas se encontram actualmente deslocadas e que cerca de 70% vivem em países de rendimento baixo ou médio. O responsável sublinhou que a protecção destas populações constitui uma responsabilidade partilhada pela comunidade internacional.
O fórum, organizado pelo Instituto de Relações Internacionais da China, contou ainda com debates sobre o papel dos BRICS na economia mundial e sobre possíveis respostas às transformações económicas e políticas em curso. A crescente influência das economias emergentes e a necessidade de adaptar as instituições internacionais às novas realidades estiveram entre os assuntos mais discutidos.
Com esta iniciativa, Pequim procura consolidar a sua presença no debate sobre o futuro da ordem internacional, defendendo uma governação mundial mais representativa e uma ONU capaz de responder aos desafios económicos, tecnológicos, ambientais e humanitários das próximas décadas.
*artigo escrito por Andrei Radulescu, colaborador do Letzebuerg Hoje, e originalmente publicado em Romeno



