Sem filtros, sem rede de segurança e com a frontalidade que lhe é característica. Foi assim a conversa do Lëtzebuerg Hoje com Serge Tonnar, um dos nomes mais conhecidos da música luxemburguesa. Numa entrevista descontraída e genuína, o cantor e compositor falou da sua carreira, das dificuldades de viver da música, da sociedade luxemburguesa e da falta de espírito revolucionário no Grão-Ducado. Não fugiu aos temas incómodos. E, como é seu hábito, não teve papas na língua.
A música entrou-lhe na vida ainda criança, através dos Beatles. Começou a tocar guitarra aos 13 ou 14 anos e, mal aprendeu três acordes, já escrevia as suas próprias canções. Nunca imaginou que a música se tornaria a sua profissão. Hoje, quase 30 anos depois de ter passado a viver da actividade artística, continua a encontrar no palco o lugar onde se sente melhor. A grande viragem aconteceu em 2003, quando começou a editar canções em luxemburguês. Muitos avisaram-no de que perderia público. Aconteceu exactamente o contrário. Segundo o próprio, a audiência multiplicou-se pelo menos por dez. Algumas das suas letras chegaram mesmo aos manuais utilizados no ensino da língua luxemburguesa.
A crítica social faz parte da sua identidade artística. E não a esconde. Durante a entrevista, Serge Tonnar mostrou-se particularmente duro com o debate sobre a segurança no Luxemburgo, considerando ridículo que o tema seja apresentado como uma das grandes preocupações nacionais num país que considera dos mais seguros do mundo. O contraste com os movimentos de contestação juvenil em França também o inquieta. Se tivesse de escrever uma canção naquele momento, seria precisamente sobre o espírito revolucionário que observa além-fronteiras e a ausência dessa mesma vontade de contestação no Luxemburgo. Para Tonnar, a música também deve servir para incomodar, provocar e fazer pensar.
Mas nem tudo são críticas políticas. O músico falou abertamente das dificuldades económicas que afectam os artistas, sobretudo num mercado pequeno como o luxemburguês. As vendas de CD, que durante anos representaram uma parte importante dos seus rendimentos, praticamente desapareceram. As plataformas de streaming oferecem, segundo explicou, receitas insignificantes para quem não acumula milhões de reproduções. Também não esconde o desconforto perante uma indústria que exige canções cada vez mais curtas e lançamentos constantes, quase como numa linha de montagem. Continua a acreditar no álbum enquanto obra completa, construída com uma identidade própria. Trabalhar com músicos mais jovens, incluindo os seus dois filhos, ambos ligados à música, permite-lhe conhecer novas formas de criação, mesmo quando não concorda com todas elas.
A conversa ganhou um significado especial quando se falou da comunidade portuguesa. O encontro entre o Lëtzebuerg Hoje e Serge Tonnar teve como ponto de partida a sua actuação num festival de fado em Larochette, onde conquistou também espectadores que pouco ou nada compreendiam de luxemburguês. Para o artista, conseguir emocionar alguém sem que essa pessoa entenda todas as palavras é um dos maiores elogios possíveis. Confessou ainda a sua admiração pelo fado, reconhecendo na nostalgia e na melancolia da música portuguesa sentimentos que também atravessam muitas das suas composições. E já tem um novo desafio pela frente: actuar sozinho no grande auditório da Philharmonie, no final de Fevereiro de 2027, perante uma sala que poderá receber cerca de 1.200 pessoas. Um concerto que o entusiasma, mas também o assusta. Afinal, como admitiu com um sorriso, por vezes até tem medo da sua própria coragem.



