A falta de intervenção da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) na defesa dos princípios democráticos está a suscitar duras críticas, sobretudo perante as restrições à participação política e à liberdade de expressão em Angola. O antigo primeiro-ministro angolano Marcolino Moco considera que a organização tem desempenhado uma missão essencialmente formal, sem conseguir concretizar os valores que estiveram na origem da sua criação. Segundo o Jornal Tropical, o antigo governante descreve algumas situações políticas nos Estados-membros como «desorientadas», apontando a ausência de uma estratégia de estabilização e uma crescente sensação de «inutilidade material da CPLP».
As críticas incidem particularmente sobre a realidade política angolana. Marcolino Moco lamenta que o debate público esteja concentrado nas eleições e nas dificuldades económicas, deixando de fora os problemas estruturais que, no seu entender, alimentam essas situações. A exclusão política preocupa-o. O antigo governante denuncia restrições enfrentadas por professores e empresários que manifestam posições contrárias às do Executivo, bem como a reduzida presença da oposição nos órgãos de comunicação social. Com as eleições gerais de 2027 no horizonte, alerta ainda para o predomínio das actividades partidárias sobre o fortalecimento das instituições democráticas. Embora a legislação permita a apresentação de múltiplas candidaturas, sustenta que persistem obstáculos à concorrência política e ao diálogo entre diferentes forças.
O funcionamento da Comissão Nacional Eleitoral de Angola também mereceu reparos. Marcolino Moco afirmou que a instituição estaria sob influência dos serviços secretos favoráveis ao poder instalado, uma acusação que apresenta como motivo de preocupação quanto à transparência eleitoral. Manifestou igualmente receios de que os tribunais possam adoptar decisões favoráveis aos governantes, comprometendo a confiança nas instituições. Para o antigo primeiro-ministro, a exclusão continuada de sectores políticos, incluindo adversários internos da estrutura partidária dominante e representantes da oposição, constitui um dos principais entraves à consolidação democrática. A CPLP deveria, na sua perspectiva, assumir uma posição mais activa perante estas situações, em vez de se limitar a acompanhar os acontecimentos sem uma intervenção efectiva.
Fundada em 17 de Julho de 1996, a CPLP reúne actualmente nove Estados-membros: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Guiné Equatorial. Os dois últimos aderiram posteriormente ao grupo dos sete países fundadores. De acordo com o Jornal Tropical, de São Tomé e Príncipe, Marcolino Moco considera que a organização continua distante da concretização dos seus compromissos democráticos. As suas declarações colocam novamente em discussão a capacidade da comunidade lusófona para responder a situações de exclusão política e defender os princípios que integram a sua missão institucional.



