A falta de verbas para a manutenção de edifícios, laboratórios e equipamentos científicos está a comprometer o funcionamento das universidades federais brasileiras, colocando em risco décadas de investigação e património científico de valor incalculável. O problema voltou a ganhar destaque após a Universidade Federal de Pernambuco, no Recife, ter registado três incêndios numa única semana. O mais grave destruiu o piso superior de um edifício destinado a laboratórios, provocando prejuízos estimados em 100 milhões de reais, correspondentes a anos de trabalho científico. Não houve feridos, mas as perdas são consideradas devastadoras. O reitor Alfredo Macedo Gomes lamentou a destruição de investigação desenvolvida por estudantes e investigadores, enquanto a Polícia Federal procura determinar se o incêndio teve origem acidental ou criminosa. Segundo o jornal brasileiro Folha de S.Paulo, a degradação das infra-estruturas universitárias reflecte um problema de financiamento que atravessa sucessivos governos e ameaça a continuidade da produção científica nacional.
A dimensão da crise torna-se evidente nos números. Em 2025, o orçamento federal destinado a obras, remodelações e aquisição de equipamentos nas universidades caiu para 600 milhões de reais, o valor mais baixo em quase duas décadas e muito distante dos 5,32 mil milhões de reais registados em 2011. O montante ficou mesmo abaixo do disponibilizado em 2007, ano em que arrancou o programa de reestruturação das universidades federais. A investigadora Maria Angélica Minhoto atribui esta redução a sucessivos cortes e bloqueios orçamentais, defendendo um modelo de financiamento estável que não deixe as instituições dependentes de apoios pontuais dos parlamentares. A académica critica ainda a actuação de sectores do Congresso brasileiro que, na sua perspectiva, dificultam o funcionamento das instituições científicas. O Ministério da Educação garante, contudo, que está a trabalhar na recuperação das verbas desde 2023, depois dos cortes registados entre 2020 e 2022. De acordo com o ministério, a dotação autorizada para despesas discricionárias passou de 6,1 mil milhões de reais em 2020 para 8,2 mil milhões em 2026. Estes valores abrangem uma categoria orçamental mais ampla do que as verbas especificamente destinadas a obras e equipamentos.
As consequências já se fazem sentir na investigação. A Universidade Federal de Pernambuco, que liderou todas as 11 edições do ranking universitário na região Nordeste e ocupou a 11.ª posição nacional no ano anterior, poderá sofrer uma redução da produção científica nos próximos anos. O alerta é de Estêvão Gamba, coordenador da classificação, que considera particularmente graves as perdas acumuladas nos laboratórios atingidos. Helena Nader, presidente da Academia Brasileira de Ciências, responsabiliza as decisões do Congresso por parte das dificuldades financeiras, apontando os cortes frequentemente introduzidos nas propostas orçamentais do Executivo. Apesar da recuperação gradual de alguns investimentos durante o actual governo, muitas universidades continuam dependentes de concursos específicos para financiar infra-estruturas e equipamentos. A situação cria um paradoxo difícil de ultrapassar: quanto mais cresce a actividade científica, maiores são as despesas de conservação, funcionamento e manutenção dos laboratórios. Um estudo recente identificou uma quebra na publicação de artigos científicos, a primeira desde 2022, embora a produção tenha recuperado em 2024. O Brasil continua entre os 15 países com maior número de publicações científicas, mas enfrenta dificuldades para assegurar os recursos necessários à continuidade desse trabalho.
O receio de novas perdas irreparáveis não é infundado. O incêndio que destruiu grande parte do espólio do Museu Nacional permanece como um dos exemplos mais dramáticos das consequências da insuficiência de investimentos na conservação do património científico e histórico brasileiro. Nas universidades, o problema vai muito além da aquisição de novos equipamentos. Mesmo quando conseguem financiamento para modernizar laboratórios, as instituições enfrentam dificuldades para reparar instalações eléctricas, conservar edifícios e garantir condições adequadas de funcionamento. Dirigentes universitários e investigadores alertam que a ausência de uma política duradoura de financiamento poderá comprometer projectos científicos, afastar oportunidades de investigação e provocar danos que nenhum reforço orçamental futuro conseguirá reparar. O caso de Pernambuco demonstra que a perda não se mede apenas em dinheiro. Há anos de conhecimento acumulado que desaparecem em poucas horas.



