A vida e o legado do médico militar José Baptista de Sousa, cujo nome identifica o hospital central de São Vicente, vão ganhar novo destaque com o lançamento de uma biografia que recupera a sua dedicação à população do Mindelo e a coragem com que enfrentou as imposições do Estado Novo português. Intitulada «Dr. José Baptista de Sousa – O homem, o médico e o militar», a obra será apresentada esta sexta-feira, 9 de Outubro, às 18h30, no Centro Cultural do Mindelo, pelo médico Sousa Santos. O livro resulta de uma investigação aprofundada de Adriano Miranda Lima, coronel reformado do Exército português e co-autor de dois estudos sobre a regionalização de Cabo Verde. Segundo o Mindel Insite, a publicação pretende preservar a memória de uma figura que marcou profundamente a história da medicina e da solidariedade humana na ilha.
A ligação de Baptista de Sousa a São Vicente começou no início de 1940, quando chegou ao Mindelo integrado numa força expedicionária portuguesa com mais de cinco mil militares. Rapidamente, os seus cuidados ultrapassaram o universo militar. O cirurgião passou a assistir também a população civil, salvando inúmeras vidas numa época marcada pela fome e por graves dificuldades sanitárias. A sua integridade profissional trouxe-lhe, contudo, problemas com o regime de Salazar. Nos atestados de óbito, recusava esconder a verdadeira causa de muitas mortes, registando frequentemente «fome crónica», contrariando as orientações oficiais que determinavam a indicação apenas da última doença do falecido. De acordo com documentos consultados por Adriano Miranda Lima, esta atitude contribuiu para que fosse alvo de perseguições políticas da PIDE. O médico também se aproximou da oposição democrática, aderindo ao Movimento de Unidade Democrática (MUD), que reunia adversários da ditadura, entre os quais Mário Soares.
A dimensão humana do médico ficou particularmente evidente em Setembro de 1944, quando regressou a Portugal. A despedida transformou-se numa manifestação popular de gratidão. Segundo as crónicas recuperadas pelo autor, milhares de habitantes do Mindelo concentraram-se entre a residência de Baptista de Sousa, na Praça Nova, e o cais de embarque, formando alas para acompanhar aquele que consideravam um verdadeiro benfeitor. O médico preparava-se para fazer o percurso de automóvel, mas foi surpreendido pela multidão. A ligação à ilha ultrapassou a actividade profissional, tendo também contraído matrimónio com uma cabo-verdiana. Adriano Miranda Lima considera inteiramente justa a decisão do Estado cabo-verdiano de atribuir o seu nome ao Hospital Baptista de Sousa, uma das principais unidades de saúde do Norte do arquipélago. A investigação nasceu da troca de recordações no blogue «Mindel na Coraçon», onde Valdemar Pereira, vice-cônsul em Tours, França, evocou a figura do capitão-médico. O trabalho contou ainda com a colaboração de Ana Margarida Brito, antiga directora do hospital.
A apresentação pública acontece sete anos depois da impressão do livro, realizada em 2019, na Tipografia do Mindelo, numa tiragem de 350 exemplares. O lançamento estava inicialmente associado a um congresso médico em São Vicente, mas a pandemia de Covid-19 acabou por adiar a divulgação. José Carlos Vitória Soulé desempenhou um papel decisivo na concretização do projecto, assumindo a edição e a promoção da obra depois de conhecer os resultados da investigação. Para Adriano Miranda Lima, que já publicou diversos textos na imprensa cabo-verdiana, esta biografia representa também um acto de reconhecimento colectivo. Mais do que recordar um médico competente, o livro devolve protagonismo a um homem que colocou a dignidade dos doentes acima das conveniências políticas e conquistou um lugar duradouro na memória dos mindelenses.



